23 de nov de 2008

Sobreviver

Tudo pode acontecer e mudar num piscar de olhos. A queda da bolsa, por exemplo, mesmo sem considerar a desgraça que representou para milhões de pessoas e os prejuízos e transtornos que ainda vai causar, funcionou como um freio de mão, um STOP nesse ritmo acelerado de vida em que nos metemos. Uma conscientização de que criamos um mundo virtual, fantasioso, que pode desmoronar e nos deixar com cara de bobos, com o pincel na mão e sem escada de apoio.

A queda da bolsa lembrou a era Color, quando, da noite para o dia, cassaram o nosso dinheiro e nos deixaram a ver navios, inventando estratégias para sobreviver. E sobrevivemos, descobrindo forças e criatividade que não sabíamos possuir.

Quando arregalei os olhos, pensando “o que será de nós?”, fui tranqüilizada com a resposta de que, sendo produtores de alimentos, comida, pelo menos, não faltaria. Uma das primeiras medidas, aliás, foi adquirir um mini-engenho de arroz, capaz de beneficiar um saco por vez, conseguido através de troca.

Naquela ocasião, em conseqüência, fui apresentada ao termo “escambo”, que até então não fazia parte do meu dicionário. Logo estávamos trocando arroz por feijão e por outros gêneros de que necessitávamos. Também conheci a solidariedade dos que dividem o pouco que têm. Tínhamos bois, ovelhas, porcos e um matadouro caseiro, mas bem estruturado, com uma peça que chamamos açougue, onde os animais, depois de mortos, são destrinchados. Além de não faltar a carne, prato preferido do gaúcho, a nós e aos funcionários, podíamos abastecer a uns e a outros, próximos a nós. Em troca, recebíamos as coisas mais diversas, como ovos, abóboras, milho, melancias e até mudas de flores, todos irmanados num mesmo sentimento de “só chegaremos à margem se remarmos juntos”.

Enfim, nada faltou. Descobrimos que podíamos viver com pouco e, aliás, por bastante tempo. Com roupas, por exemplo, não precisávamos nos preocupar, pois é impressionante a quantidade que todos, independente da situação financeira, acumulamos.

No mutirão de solidariedade, prestadores de serviço e credores se portaram à altura, buscando alternativas para solucionar os problemas, ampliados pelo compromisso com muitas pessoas que dependiam da continuidade da empresa rural, para conservar os seus empregos.

Na Páscoa, com as amigas, aprendi a fazer ovos de chocolate e confeccionei bolachinhas caseiras, para distribuir aos adultos. Reuniões familiares e de amigos continuaram sendo realizadas, pois um trazia latinhas de cerveja, outro tinha uma garrafa de vinho e alguém aparecia com a sobremesa.

Daquele tempo, sobrou o mini-engenho, que até hoje cumpre o seu papel, e a certeza de que somos capazes de sobreviver, mesmo que alguém, num momento irresponsável, decida nos puxar o tapete.

Dessa imprevisível queda da bolsa, outras lições ficarão. Na metade sul do Rio Grande, a euforia pela chegada das florestadoras, com a oportunidade de ótimos negócios e a abertura de novas frentes de trabalho, foi substituída pela expectativa sobre o que virá pela frente. Alguns souberam aproveitar as oportunidades e podem respirar, aliviados, na esperança de não serem afetados pela crise. Outros estarão lembrando a sabedoria do velho ditado “Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”. E todos fomos conscientizados de que tudo pode acontecer, a qualquer momento, e bom será se aceitarmos essa realidade, sem alarmismo ou depressão. Apenas pela certeza de que é assim e nada podemos fazer para mudar.

Mas, com pé no chão e coragem, sobreviveremos, mais uma vez.

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