Houve tempo em que, mais que “do lar”, fui “do campo”. Recém casada, morei muito tempo na fazenda, no interior de Pedro Osório, com esporádicas vindas a Pelotas _ situação que me agradava, pelas raízes campeiras, desenvolvidas desde a infância.
Mas, na fazenda, naquela época _ pela distância estabelecida pelas estradas precárias (antes da construção da ponte sobre o rio Piratini e do asfalto, na BR116), pela falta de luz elétrica, telefonia e outros avanços que depois aconteceram _ era preciso criatividade para enfrentar o dia-a-dia. Tendo optado por ter filhos mais tarde (em razão de conhecer a vivência de pai distante, tratando das atividades na propriedade rural, e mãe na cidade, cuidando dos filhos, em idade escolar) e estando o marido envolvido com seus afazeres, cabia-me inventar, além das tarefas necessárias ao bom andamento doméstico, outras que driblassem a solidão dos dias que se estendiam, intermináveis.
Naquele tempo, principalmente em razão do isolamento em que viviam os moradores do campo, com idas quinzenais ao abastecimento comercial mais próximo, a ordem era ser o mais independente possível, produzindo na propriedade tudo que pudesse facilitar a vida, além de obter o maior aproveitamento de cada produto ou situação.
Embora a rede elétrica ainda não houvesse chegado lá, possuíamos dois geradores de energia (um na reserva), o que nos dava certo conforto, desde que nos adaptássemos às circunstâncias. A geladeira, por exemplo, era a querosene, e muito vi o sogro estirado no piso frio da copa, acertando a mecha até ficar azul, atividade que exigia muita paciência e a utilização obrigatória do querosene da marca Jacaré. Mas, ligado à tardinha, o gerador permitia que se assistisse ao noticiário e às novelas, na TV Zenith 14 polegadas, visor em preto e branco_ presente de casamento, muito apreciado.
Quando prontos para dormir, do interior da casa (grande conforto), desligávamos o gerador, continuando com a luz das baterias. Sempre que chovia, havia a preocupação em juntar água destilada para manter o nível, nas baterias.
Sem a possibilidade de possuir um freezer, a carne consumida era basicamente de ovinos, mas mensalmente era providenciado o abate de uma vaca para fornecimento de carne aos posteiros, que dela faziam charque, a fim de garantir a conservação (posteiros são funcionários que moram com a família em casas afastadas da sede, responsabilizando-se pelo cuidado das áreas mais distantes). Seguidamente também ocorria o abate de porcos, motivo de festa, pois os parentes do capataz, Elmiro, tiravam folga do instituto de beleza em Rio Grande e vinham ajudar na empreitada.
Da Banca do Sêo Antoninho, no Mercado central, eu trazia mais de cem metros de tripa, pimenta e alho, para juntos prepararmos as lingüiças, enchendo as tripas com o auxílio da máquina de guisado, retirado o moedor. A imensa cabeça do porco, raça Landrace, passava a noite cozinhando no caldeirão de ferro, sobre uma trempe, no fogo à lenha. Pela manhã, a carne da cabeça era cortada, temperada e prensada nas formas adequadas para preparar o queijo de porco. Para maior durabilidade, os lombos de porco, depois de temperados e assados, eram conservados em meio à banha, em vasilhas semelhantes às utilizadas para a coleta do leite. As lingüiças, quando prontas, _ após a repartição com a cozinha dos funcionários e com os inúmeros ajudantes _ eram postas no varal, para secar ao sol; algumas iam para a banha, junto com os lombinhos.
Certo dia, quando publiquei crônicas com lembranças da infância, um amigo, homem da cidade, disse que gostaria de saber sobre a vida na fazenda, como adulta. Considerei, na ocasião, que as histórias, por banais, não despertariam interesse. Mas o tempo passou, levando inclusive o tempo que sobrava, e os fatos então corriqueiros se tornaram pitorescos. Por isso, anos após, remexo o baú e puxo lembranças.
Um comentário:
Remexemos no fundo do baú, mesmo sem sentir, pois somos o passado, estando no presente e o que seremos no futuro. Triste de quem não tem um baú para, fundo, remexer.
Beijos
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