4 de abr de 2003

Por via das dúvidas

A voz alta e clara da executiva cortou o discreto silêncio do café da manhã no salão do hotel, antes alterado apenas pelo ruído dos talheres e pelo ocasional arrastar de cadeiras. “Dinheiro chama dinheiro”, afirmava, exasperada pelas dificuldades financeiras e as enfrentadas no local de trabalho, enquanto para sua colega corria tudo bem.

A outra, além do pai rico, possuidor de diversos bens, ali enumerados, ainda arrumara um marido provedor. Com tais atributos, ficava difícil a competição, argumentava a moça loira, passando, enérgica, a manteiga no croissant, entre um gole e outro de suco de laranja. O tom eloqüente e exaltado acabou por despertar todos os presentes, tornando-nos partícipes do seu drama.

Na hipótese de tê-la à mão, imaginei colocar uma nota de cem reais sobre a mesa, esperando a multiplicação. Mais provável seria o seu rápido desaparecimento. Tal como acontece com qualquer bem, quando manejado de forma inadequada.

É costume simplificar, tirando o valor de quem “nasceu em berço de ouro”, dizendo que são fáceis as conquistas, a partir de um bom começo. Imaginamos que todas as portas se abram e talvez, em parte, isso seja verdadeiro. Mas elas só permanecerão abertas se houver merecimento. Sendo o berço simples obra do acaso, diferentes fatores serão os determinantes do sucesso. Entre eles, a formação recebida, a educação, a capacidade de liderança e de entrosamento, a vontade de aprender, a garra, a obstinação em fazer o melhor possível, tudo temperado com farta dose de sorte. De outra forma, seria muito fácil conservar e aumentar o patrimônio recebido, o que não acontece.
Não sei se a pessoa referida armazenava outros defeitos além desse, terrível, de ser possuidora, sem maiores méritos, de tudo o que a concorrente almejava. Por outro lado, não seria uma inequívoca forma de discriminação julgar alguém sem qualidades somente porque foi aquinhoado pela fortuna?

Assim, após besuntar com geléia e leves considerações filosóficas a última torradinha, levantei-me para sair. Participara, ainda que de forma involuntária, do show onde o despeito e a inveja haviam sido os atores principais. Porém, se conhecesse a causadora do tumulto, numa hora que preferia tivesse sido calma, recomendaria o uso de uma figa ou uma oração poderosa ao santo de sua proteção. Não que creia ou deixe de crer. Só por via das dúvidas.

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