9 de abr de 2003

A melhor idade

Não sei onde se situa a terceira idade. Quando muito jovem, considerava velhos os de trinta anos. Aliás, a minha geração criou uma música, aconselhando a não confiar neles. Depois, fui postergando, colocando sempre alguns anos à frente, até que, recentemente, alguém deu a definição perfeita: São dez além dos já vividos.

Velhice, nem pensar. Agora, ninguém mais é velho. Aquela imagem da vovó - cabelos brancos presos num coque discreto, tricotando uma manta ou preparando o bolo para o café da tarde, segregada em casa – ficou restrita aos comerciais da TV. As pessoas participam de grupos, viajam, passeiam, inseridas na modernidade. Às vezes os filhos se ressentem de tanta movimentação, saudosos da atenção especial, dividida com as novelas, os telefonemas para as amigas, o voluntariado nas diversas ONGS, o acesso à internet, a movimentação social.

Contudo, num rasgo de otimismo e exagero, alguns passaram a chamar esta de “a melhor idade”. Talvez tenham suas razões ou desejem apenas convencer aos outros, não sei. Podem ser boas ou más todas as fases da vida. Embora livres de maiores compromissos, as crianças sofrem por muitas descobertas, dúvidas, incapacidade de gerenciarem seu destino. A juventude possui o invejado vigor físico, a exuberância, o futuro pela frente, mas os jovens, em sua maioria, são angustiados, temerosos, com baixa auto-estima, desconhecedores do seu enorme potencial. Causa-nos encantamento a visão dos pais com seus filhos pequenos, mas os jovens casais sabem o quanto lhes rouba o exercício da paternidade, afastando de si toda a possibilidade de romance e devaneio. Por fim, admiramos a disposição dos já maduros, com horas livres para usar ao bel prazer, enquanto alguns deles se queixam justamente desse excesso de tempo livre.

Não há como negar, porém, que cada vez mais perspectivas surgem, aumentada a longevidade e a qualidade de vida. Compreendi que isso ocorreria, na altura dos meus quinze anos, quando uma pesquisa constatou o grande aumento da população jovem, naquela ocasião, fazendo o comércio interessar-se pelo novo mercado consumidor. O mesmo grupo, atualmente, desperta interesse, descoberto o enorme potencial de pessoas já estabelecidas, independentes, com dinheiro da aposentadoria para usufruir.

É boa a notícia, mas depende de cada um o primeiro passo, a procura pelo envolvimento desejado, a saída do casulo. As opções são inúmeras: freqüentar academias de ginástica, pesquisar novos entretenimentos, descobrir afinidades sequer imaginadas. A maturidade, que nos ensinou a lidar com as frustrações, ensina-nos a aceitar o nosso próprio ritmo. Podemos, enfim, relaxar e ser nós mesmos. Ainda que todos estejam malhando e acessando a internet, podemos escolher outras atividades, se preferirmos. Já vimos filmes tantas vezes reprisados, modismos que vão e voltam; a experiência nos ensinou a seguir a voz do bom senso, a sugestão das nossas próprias preferências, em detrimento do que “todos estão fazendo”. A escolha pode ser qualquer decisão nossa, pois isso devemos cobrar da maturidade: a consciência de quem somos e a do que nos apetece.

Não existe esta idade melhor, perfeita. Depende de nós fazermos de cada dia motivo de crescimento e alegria. Não preciso me obrigar a sair pelo mundo, como barco errante, se sou mais o porto confiável onde alguns apreciam aportar; nem, como andarilho, palmilhar com meu bastão sendas desconhecidas, se desejo ser casa iluminada e fogo na lareira. Mas posso abrir a mente para novas experiências, manter-me alerta e receptiva, neste tempo que me é dado usufruir.

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