23 de jun de 2006

Quando não vale a pena

Sabe aquele tipo de sujeito que perde o amigo, mas não perde a piada? Estamos de acordo: é um chato. Ainda bem que não é um tipo comum. Mas há outro tipo de comportamento que poucos podem se gabar de jamais ter tido. Refiro-me à necessidade de provar o nosso ponto de vista, esclarecer em detalhes, sem aceitar lapsos ou exageros.

Desse mal, a maioria de nós padece. Para não perder a discussão, magoamos o outro ou o colocamos em ridículo, provamos que falou bobagem, nada entende desse assunto.
Alguém se engana, ao contar detalhes da viagem recém feita, localiza mal algum ponto turístico, troca o nome do restaurante. Lá vamos nós, a voz da sabedoria, esclarecendo tudo e roubando ao viajante o prazer da narrativa.

No meio de uma descrição qualquer, outro erra a data e, antes que cometa mais crimes, tratamos de interrompê-lo, com nossas baterias sempre prontas para detectar distrações e enganos.

Pior pode acontecer: junto a nós, falam uma inócua mentira, própria para engrandecer o orador. O que faz o Dom Quixote em prontidão? Esclarece os mínimos detalhes: “Não foi bem assim, assisti tudo, estava lá”. O outro cala a boca, envergonhado.

Relendo “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, o livro sempre atual de Dale Carnegie, de repente caiu a ficha. “Você não pode vencer uma discussão”_ escreveu, há mais de meio século _ “porque, se perder, perdeu mesmo. Se ganhar, arrasando com os argumentos de outro homem, você não o terá convencido, apenas terá ferido o seu amor-próprio e feito com que ele se sinta inferior”.

Aí a ficha caiu: vale a pena vencer uma discussão, a esse preço? Algum de nós, em seu juízo perfeito, deseja humilhar, tripudiar sobre o que o outro falou, fazer com que se sinta pequeninho e cale a boca? Há graça nessa vitória?

Mais que os elogios recebidos, persistem na nossa lembrança as críticas amargas, impiedosas, aquelas que foram fundo nas nossas feridas, como faca empunhada por mão determinada. Sabemos disso, mas a certeza não impede que, vez por outra, repitamos a façanha. No calor da discussão, precisamos novamente ir às últimas conseqüências, provar a ignorância alheia, desvendar a verdade. Como se fôssemos seres perfeitos, incapazes de usar de subterfúgios ou apelar para meias-verdades.

Adolescentes costumam se divertir apontando os erros, principalmente dos pais, mas nessa fase a atitude é compreensível,fruto do desejo de afirmação. Passada a adolescência, seria bom se conseguíssemos contar até dez, antes de abrir a boca. Vale a pena o exercício de tolerância, ainda que, em algumas circunstâncias, a contagem precise ir a cem ou exija uma saída estratégica, para evitar ouvir maiores absurdos.

_ “Então, a proposta é aceitar tudo, jamais contra-argumentar”? _ eu mesma me pergunto, já achando que assim qualquer conversa perde a graça. Mas estou me fazendo de boba, pois não é difícil perceber quando cabem argumentos ou quando o melhor é apenas ouvir, sem retrucar ou interromper.

Em alguns casos, mais tarde, sem testemunhas, vale a pena retificar o que ficou mal esclarecido. Em outros, não vale a pena.

10 comentários:

Ruthe disse...

Querida Marta!
Ah! quantas vezes deixei cair a ficha!Até agora, não tinha me dado conta de como fiz bobagens e o pior de tudo - deixei pessoas mal...Mas nunca é tarde para uma correção. Não podes imaginar o bem que me fizeste com esta CRONICA!

Ruthe

Blog do Simeão disse...

O pior que existe é aquelas pessoas que vivem "cobrando" este ou aquele procedimento. Como fazem falta aquelas pessoas alegres e simpáticas, como era a minha avó Amélia. Todos gostavam e sentem saudades dela. Ela não ganhava, ela sempre ajudava todos.
Outra característica ruim é o tal de ciumes: muitas pessoas não suportam que outras sejam bem sucedidas e ocupem cargos mais altos.

Nvunda disse...

Marta suas cronicas me fazem sempre pensar em coisas da minha realidade juntando suas palavras. Vale a pena contar quando se liberta um pouco de oxigenio e a gente se sente avontade, sem peso de consciencia, mas não vale a pena contar bobagens sem relevancia. Continue que eu aqui, quer dizer de luanda capital da republica de angola estarei sempre atento as suas próximas palavras.

Zecka disse...

Sabe, lendo o teu artigo pensei, esta pessoa me conhece. Ela praticamente descreveu as atitudes e expressões que muitas vezes utilizo! É claro que não é exatamente assim, mas é muito próximo do exatamente. Inclusive comentei com minha esposa e .... para meu desespero ela concordou comigo, o artigo foi escrito para mim. É claro que minha intenção não é prejudicar os outros, mas acredito já ter feito muita gente sofrer. Espero poder melhorar num futuro breve. Obrigado.
Zecka

ceres disse...

Sabias palavras,meu bem,e,como sempre, bem escritas e bem ditas! Estou impressionada com o alcance de teus leitores:Luanda?

Anônimo disse...

Parabens marta, teu blog já está listado entre meus favoritos. não deixarei de continuar lendo as tuas crônicas que são o espelho do cotidiano, que passa despercebido por nós, que sempre estamos envolvidos pelos problemas insolúveis do dia-a-dia. sucesso para ti e continua nos brindando com a tua perspicácia. renato

Camila G. dos Santos disse...

Muito interessante esse texto!!!
Parabéns Marta!!!!!!!!!!

Camila G. dos Santos

Luiz André disse...

Marta, que delícia de leitura. Firme e suave, delicada e profunda. A tua cara!
Adorei teu blog, vai se tornar obrigatório.
Luiz André Bacelo

Lisângela disse...

Oi Marta!! Parabéns!! Teus artigos são maravilhosos e repletos de sabedoria!! Um grande abraço.

O OTIMISTA disse...

Ola Marta, recebi a dica do teu blog pelo Luiz Andre Bacelo.
Realmente são muito interessantes tuas observações, assim como a linguagem (simples e objetiva). O Sábio Dale Carnegie deixou um grande legado para a humanidade, cada vez que leio ou vivo alguma lição na prática, me caem muitas fichas. Parabéns por usar tua persepção e ajudar a difundir estes ensinamentos, isto demonstra tua grandeza. Procurarei acompanhar de perto tuas crônicas a partir de agora, assim como agradecerei o Luis André pela indicação. Abraços e sucessos.