23 de ago de 2006

Rumo às Ilhas Canárias

No momento determinado para a partida de Funchal, na Ilha da Madeira, o serviço de comunicação de bordo do navio solicita, com insistência, que cinco passageiros se comuniquem imediatamente; deduzo que se atrasaram. Isso se repetirá em todos os portos, sempre com alguns retardatários.

Sendo a pontualidade uma regra básica de educação, esse comportamento causa certo desagrado. Decerto o mesmo que tiveram os “notáveis” - como os denominou o jornal de Lisboa que narrou o fato _ quando, ao chegarem atrasados a uma apresentação do ator brasileiro Antônio Fagundes, em Sintra, foram impedidos de entrar, precisando aguardar o intervalo na porta. Relatou o jornal que eles ficaram indignados, embora injustamente. Pessoalmente, apreciei a atitude. Se fosse utilizada com mais freqüência, aprenderíamos a ser pontuais, com certeza.

Na partida, o navio apita três vezes, de forma prolongada e triste. Vejo se afastar o barco com o prático que acompanhou o navio até a saída do porto, como é costume, despedindo-se ele também com o que me pareceram três apitos longos e um curto. Abanam os dois homens da embarcação, em despedida, e os passageiros no convés respondem. Vão ficando pequeninos e sumindo de vista os edifícios e as montanhas com sua exuberante vegetação.

Resolvemos jantar às dezoito horas, para depois assistir à costumeira apresentação do pianista, acompanhado da cantora loura,no deck 8, o mesmo onde fica o nosso camarote. Mais tarde, no teatro, o mágico alterna com presteza os idiomas inglês e português, em suas brincadeiras. Ouço alguns reclamarem que só falam “brasileiro”, pois os lisboetas sentem certa dificuldade com a nossa língua, embora oriunda da pátria-mãe. Para nós, a noite encerra com dança, no Bounty Lounge, ora ao som de antigos boleros, ora das últimas novidades em música brasileira. Outros continuarão jogando no cassino, conferindo a oferta do dia na loja de bordo, fazendo lá o seu próprio colar de ouro 18k e recebendo a pulseira como brinde, ou se reunindo no salão dos solteiros, onde a festa não tem hora para acabar.

Cruzeiro marítimo é um tipo diferente de viagem, embora todo o conforto: a pessoa ama ou odeia. Converso com outras pessoas e a maioria é veterana, viajou em inúmeros outros navios. Alguém conta ser esta sua décima sétima viagem. Muitos inclusive já viajaram neste mesmo, fazendo circuitos pela Europa. Durante o verão, ele fará cruzeiros na costa brasileira.

Quando olho a imensidão de água por todos os lados, lembro os descobridores portugueses, percorrendo este mesmo caminho em suas pequenas caravelas, sem GPS e toda a tecnologia atual. Raramente cruzamos com outra embarcação. Na visita à torre de comando, sou informada de que os navios se comunicam, embora não se enxerguem, e trocam todas as coordenadas de suas posições.

Aliás, na fila para pegar a senha para a visita, conversei com um senhor português, que me disse “estar na bicha”; logo, constrangido, ele retificou: sabia não poder falar assim no Brasil. Daí continuamos o assunto, desenvolvendo sobre similaridades e diferenças das nossas culturas, no entrosamento natural desta população flutuante de cerca de duas mil pessoas, entre passageiros e tripulantes.

Outro dia, uma senhora me contou que não são bem-vistas as moças brasileiras que vão viver, sozinhas, em Portugal, pois vão com o intuito de “roubar os maridos”. Quando outro me falou sobre a licenciosidade brasileira, não resisti e comentei que a maneira de namorar, na terra lusitana, também está muito avançada: nas praças, as jovens sentam no colo dos namorados, enganchadas, de frente para eles. Nas esquinas, da mesma forma que pegou moda no Brasil, os namorados ficam se beijando, como se o beijo não tivesse graça, se fosse mais recatado. Ele respondeu que, após a queda da ditadura, começou esse excesso de liberdade. Bom, então não é só no Brasil, estamos entendidos.

Volta e meia eu me vejo contestando as afirmações tendenciosas; o sentimento nacionalista fica exacerbado, além-fronteiras. Não aceitamos ouvir de estrangeiros comentários desabonadores sobre o nosso país, embora entre nós possamos fazer tais comentários. Como acontece no meio familiar: roupa suja se lava em casa.

À beira da piscina, a graciosa brasileira ensina os passos da lambada e do samba, na explicação alternando os idiomas inglês e português. Com grande animação, as inglesas tentam imitar seu gingado maneiro, sem muito sucesso. Fico um pouco penalizada por ver os gestos imitados, na maior inocência e alegria. Elas realmente não conhecem o conteúdo grotesco de algumas músicas nacionais.

Há três restaurantes, neste navio. Dois convencionais, com mesas postas e lugares determinados, e um terceiro mais informal, funcionando vinte e quatro horas, num festival de comida sempre renovado. Gostaria de ver as cozinhas deste enorme hotel flutuante, o serviço contínuo, abastecendo as hordas sempre famintas.

Num cruzeiro, normalmente, as despesas de alimentação estão todas incluídas no pacote pago anteriormente. Costumam ser seis refeições diárias, o que se revela desnecessário para a maioria das pessoas, pois todas são fartas e é difícil resistir à variedade e evitar os excessos. Quando chega a hora da ceia, à meia noite, grande parte dos passageiros foge à tentação. Contudo, um cruzeiro marítimo deve ser o paraíso dos obesos e, neste, eles são em grande quantidade. Alguns nem conseguem se locomover, permanecem sentados ao ar livre, tomando sol, olhando o horizonte e lendo. É uma possibilidade de viajar.

Este cruzeiro, como possui o restaurante vinte quatro horas, aboliu o cerimonial da ceia, sempre uma ocasião mais festiva.

Aliás, no informativo sobre o mesmo, era muito citado o item informalidade, obrigatório o paletó masculino apenas no restaurante com serviço sob reserva _ essa outra diferença percebida, em relação aos cruzeiros anteriores, onde não havia essa modalidade. Nela, há três opções de entrada, três do prato principal e três de sobremesa, sendo duas opções pagas e a terceira não, todas excelentes. Assim, se alguém preferir jantar nesse restaurante, onde o ambiente é mais tranqüilo, sem efetuar maiores gastos, pode fazê-lo, sem constrangimento. Se desejar pedir um vinho, os preços serão os mesmos do outro restaurante.

Contudo, embora a informalidade tenha sido ressaltada para a venda do pacote turístico, em geral, as pessoas trocam de roupa, à noite, principalmente as que vão ao teatro e depois à dança. Vejo dois casais, inclusive, em que os homens trajam sempre smoking e as senhoras, vestidos longos, após as dezoito horas.

Dentro do navio, qualquer despesa é feita com o cartão de identificação magnética. Na noite anterior ao desembarque será apresentada a fatura, que poderá ser paga com o cartão bancário internacional ou em dólares. Toda a alimentação está incluída, exceto os pratos opcionais do restaurante sob reserva. Bebidas de qualquer tipo serão cobradas, bem como as despesas com compras nas lojas e as excursões em terra. Algumas pessoas estão constantemente bebericando os coquetéis coloridos e bem elaborados, mas ninguém parece se exceder ou mostrar comportamento inconveniente.

Ah, só pra me contrariar: no decorrer de um jogo de perguntas indiscretas aos casais inscritos, inquirida sobre o lugar mais inusitado em que fizera amor, a mulher, pega de surpresa, respondeu:_ “Foi ontem...no deck 11”. Para espanto de todos, inclusive do entrevistador, que tratou de desconversar.
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Adormeço no balanço suave das ondas, enquanto o navio avança rumo às Ilhas Canárias.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!

Cada vez penso mais em sair por este mundo e desbravar as maravilhas que viste, sentiste e contas com tamanha facilidade e clareza!
Acredito que,a viagem, é a melhor maneira de aumentarmos o "quesito" alargamento de horizontes, em todos os sentidos.

Beijos