19 de ago de 2006

Um passo pra fora da zona de conforto

No convívio social, algumas pessoas abominam o desconforto das apresentações, das conversas com conhecidos eventuais, dos olhares atravessados e das perguntas do tipo “Sabe quem é?” ou “Conhece de onde?”. Se, à insegurança do ambiente adverso, for acrescentado o mal-estar por vestir roupas incômodas, é provável que a experiência não deseje ser repetida. Acostumados ao uso diário da dobradinha “jeans e camiseta”, muitos homens se sentem tolhidos, ao vestirem terno e gravata. Se o colarinho da camisa sufocar, os sapatos apertarem, e o casaco, tão justo, mostrar o insucesso das últimas tentativas para perder peso, é certo que, bem antes do bolo com as velinhas, ele estará pronto para abandonar essa droga de festa.

Da mesma forma, a expectativa da segunda-feira após a comemoração da formatura, a escolha da roupa para o primeiro dia no emprego, a espera do chefe que vem jantar com a esposa, a defesa da tese de mestrado, a volta à sala de aula na condição de aluno, quando o sujeito já se julgava quase aposentado, são situações-limite, testes de sanidade.

Novas experiências despertam emoções diferentes em cada pessoa. Alguns possuem dentro de si uma criança sedenta de novidades, e esses parecem enfrentar com destemor qualquer situação que se apresente. Outros, ao contrário, têm em seu interior uma criança tímida, presa dentro dos estreitos limites de sua área de segurança e sem a menor vontade de expandi-los. Esses sofrem, a cada vez que os seus medos resistem às solicitações externas, enclausurando-os.

Em algum momento da vida, sejam tímidos ou destemidos, todos se encontram com a criança que, se não for adulada e encorajada com constância, vai passar o dia em frente à TV, fazendo birra. Acenamos com as oportunidades de negócios e de novos relacionamentos, encontradas no ambiente social; mostramos o roteiro seguido pelos vencedores, para que compreenda que nada lhe será acessível, se permanecer fechada na concha onde se enfiou.

E a criança interna senta no chão, chora, esperneia, diz que não aprecia tecnologia, pra que aprender computação? não quer viajar, avião mete medo; cansou de estudar, agora chega; passou da idade, nunca mais vai amar.

Só que não dá para deixar por isso mesmo. Quem se encolhe demais, logo se vê apertado pelos que desejam se expandir; quem se deixa ficar pra trás, é atropelado pelos mais afoitos. Por isso, não podemos exagerar na condescendência com a criança chamada Acomodação.

É preciso ajudá-la a dar um passinho para fora da zona de conforto, abrir o cercadinho, sacudir o chocalho e fazê-la desejar. Vale presentear com o material escolar dos Rebeldes ou da Hello Kity, para que enfrente com segurança o primeiro dia na pré-escola; comprar um terno no tamanho certo, sapatos confortáveis; ler os jornais ou o livro do momento, para ter o que falar no encontro social. Vale qualquer coisa, desde que não se perca o ritmo da vida.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Nossa vida é um interminável aprender. É preciso que tenhamos sempre alguma meta a alcançar - isto se chama - viver!
Deixar tudo como está - é adormecer...

Beijos