1 de out de 2006

Mais Platão, menos Prozac

Na história da humanidade, os filósofos sempre tomaram parte na vida pública e política, ajudando a resolver questões éticas e morais.No meio da multidão, discutiam questões existenciais e relacionamentos.
Nos últimos cem anos, a Filosofia se retraiu, talvez pelo avanço da ciência. A boa notícia é que ela ressurge, renovada, popularizada, através do aconselhamento filosófico.

Uma amiga sugeriu a leitura de “Pergunte a Platão”, segundo livro de Lou Marinoff, filósofo e líder de uma corrente de pensamento que devolve a filosofia ao dia-a-dia. No meio do livro, percebi que precisava começar pelo começo e adquiri “Mais platão, menos Prozac”, do mesmo autor.

No final de ambos os livros, há referências a vários práticos filosóficos em diversos países. Procurei no Google sobre aconselhamento filosófico no Brasil e não encontrei, embora tenha encontrado uma entrevista com o Dr. Lou Marinoff, feita pela revista Época. De qualquer forma, o aconselhamento filosófico começou na Alemanha, na década de 80, e se alastra com rapidez; se aqui não chegou, breve chegará.
Pessoas esclarecidas costumam procurar ajuda profissional para problemas que não se julgam com capacidade para resolver. Procuram psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, conselheiros matrimoniais e religiosos. Muitos diagnósticos não competem à área da filosofia; alguns exigem a medicação adequada. Outros, porém, podem ser esclarecidos através da sabedoria milenar; as respostas são atuais, porque os conflitos da humanidade são sempre os mesmos.

Os conselheiros filosóficos se propõem a ajudar a refletir por conta própria. Mas talvez muitos de nós descubramos, lendo “Mais Platão, menos Prozac”, que mesmo sem conhecer Platão já nos aventurávamos pelos caminhos da filosofia.

Nossas experiências se tornam lições, quando raciocinamos sobre elas e tiramos conclusões. Isso nos proporciona descobrir e formar a nossa filosofia de vida, mesmo que não conheçamos os grandes pensadores.

Uma mulher fala que deseja trabalhar fora, ganhar seu próprio sustento. Passam-se os anos e repete a mesma queixa: não consegue emprego. Outra repete desde jovem que não suporta o marido, mas envelhecem juntos. O homem critica os políticos desonestos, mas faz pequenas falcatruas, achando-se esperto. O adolescente condena a atitude de todos, mas embolsa o troco recebido por engano.

Todas essas atitudes e outras tantas, algumas praticadas com freqüência no cotidiano, são exemplos corriqueiros da incoerência entre as nossas ações e o que julgamos serem as nossas crenças. Em muitas ocasiões, repetimos os gestos e os passos já conhecidos, sem saber se são autênticos, condizentes com a nossa maneira de pensar, ou mera repetição do que nos foi ensinado.

A compreensão da nossa filosofia de vida vem através da exploração dos próprios sentimentos e do contato com pessoas que nos ajudem a desenvolver o pensamento crítico, sejam filósofos, conselheiros, amigos ou conhecidos eventuais. Se estivermos abertos, até alguém para quem não somos simpáticos pode nos esclarecer sobre a nossa verdadeira maneira de ser e agir. De repente, no meio de uma discussão acirrada, suas críticas e recriminações representam a lamparina que devassa o nosso íntimo, especula as verdadeiras intenções, despercebidas por nós mesmos.

O enfrentamento com o próprio eu demanda alto grau de honestidade. Às vezes, precisamos admitir que fomos egoístas, levianos, fracos ou tolos. Não é fácil a conclusão de que o erro é nosso, parece bem mais simples culpar o resto do mundo, as condições pouco propícias, o marido, a esposa, o filho, o chefe, a funcionária. Escondemos as nossas deficiências e fraquezas, para não sermos obrigados a tomar atitudes.

Possuir uma filosofia de vida implica na recusa em seguir a multidão e agir como todos agem, por medo de ser diferente. Para começar, a leitura de um bom livro pode ajudar. Depois, é um esforço constante para fugir das desculpas fáceis e encontrar o caminho da coerência.

3 comentários:

Ruthe disse...

Marta!

Na minha existência, encontrei poucas pessoas coerentes.Eu mesma já me surpreendi sendo muitas vezes incoeerente, quando não devia ser,pois de acordo com minha filosofia de vida devia ser coerente, mas fui, obrigada, encurralada por "N" questões.
Falar é fácil, mas quando o problema aparece ante teus olhos...

Beijos

Anônimo disse...

Adorei esta crônica !!!!!!
Realmente o que nos atrapalha e o mêdo de parecer diferente.
neste momento é que precisamos nos enfrentarmos.
beijos Ivone

Anônimo disse...

Para dizer que tenho acompanhado suas crônicas.
Fraterno abraço,
José Luiz Kessler