27 de jan de 2007

Com a maior cara de pau

Para surpresa e mal-estar do anfitrião, a aguardada visita chegou acompanhada de seu cachorro, mistura de vira-lata com raça não identificada. Educado, o dono da casa não fez comentário algum sobre o fato, receando que qualquer observação mostrasse o seu desagrado.

Sentaram-se os dois na sala de estar, começando a saborear os petiscos colocados em pratinhos, sobre a mesa baixa, enquanto tratavam do motivo do encontro. Novamente para espanto do dono da casa, o cachorro, sentado sobre as patas traseiras, também se servia do aperitivo, na maior tranqüilidade.

A reunião terminada, o dono da casa conduziu a visita e seu cão até a porta. Lá chegando, a visita se despediu e ia saindo, quando o dono da casa, vendo o cachorro bem sentado ao seu lado _ só faltava acenar, em despedida _ perguntou:

_ Ué, não vai levar o seu cão?

_ Meu? Pensei que era seu... _ disse a visita. E os dois ficaram se olhando, com cara de idiotas.

Na arrumação da escrivaninha _ obedecendo a um dos propósitos do novo ano, o de mantê-la sempre organizada _ encontrei um recorte de jornal. Despercebido entre inúmeros papéis, esperava o dia da bendita arrumação para novamente atrair a minha atenção.

A notícia se referia ao ex-prefeito de Juiz de Fora, Tarcísio Delgado e ao senador Wellington Salgado. Amigos, tendo se encontrado no Congresso nacional, resolveram sair para almoçar juntos, a fim de colocar a conversa em dia. No percurso até o estacionamento, ambos foram seguidos a curta distância por um homem bem-vestido, que o senador julgou fosse auxiliar do colega. Como não cabiam todos no mesmo automóvel, o senador pediu ao desconhecido que embarcasse no veículo de trás, com o seu assessor.

_ Quem é ele? _ perguntou Delgado, ao entrar no carro.

_ Não está com você? – espantou-se Salgado. Descoberto o mal-entendido, prontamente o senador ligou para o seu assessor e lhe pediu que desse um jeito de dispensar o penetra, que sem cerimônia já estava no veículo de trás, a caminho do restaurante.

Logo após a leitura dessa notícia, saiu na revista Veja uma extensa reportagem sobre conhecidos “penetras”, pessoas acostumadas a freqüentarem festas badaladas, sem convite ou qualquer relação com os promotores da festa. Com a maior cara-de-pau, essas pessoas permitiram que seus nomes e fisionomias fossem divulgados na revista, como se tivessem orgulho da proeza. Inclusive, alguns até deram dicas, ensinando como se introduzir em tais ambientes, driblando a segurança.

Talvez todas essas situações não tenham a mesma razão de ser. Podem alguns apenas desejar curtir a festa, comer e beber à vontade, enquanto outros são movidos pela vaidade de fingir relação com o poder. No caso citado acima, poderia o cidadão pretender saborear uma refeição gratuita, saber intimidades dos dois políticos ou somente usufruir a sensação de tê-los ludibriado. Razões menos nobres que a do cão, que provavelmente apenas buscava o calor humano.

Inclusive, por ocasião do lançamento do meu primeiro livro, em Porto Alegre, tive oportunidade de conhecer alguns conhecidos penetras daquela cidade. Eram três homens e uma mulher, os cavalheiros vestidos com terno e gravata, roupas com aparência de muito usadas; a mulher com um traje que não chamava a atenção. No início, eles não se enturmaram, ficando pai e filha para um lado e os outros dois para outro; no correr da noite, os quatro se aproximaram e ficaram juntos, inclusive os dois primeiros ocupando o sofá, um dos raros lugares para sentar. Todos comiam e bebiam à vontade, para divertimento dos convidados.

Alguém me explicou que eram penetras já famosos, alguns tinham até participado de uma entrevista realizada por um jornal da capital; em resumo, lançamento ou vernissage que se prezasse precisava contar com a sua presença. Todos os dias, eles colhiam as notas sobre os acontecimentos nos jornais e escolhiam os mais promissores.

Nada a ver com outras pessoas que me deram o enorme prazer da sua presença, mesmo sem me conhecer, como alguns que, lendo no Correio do Povo que a escritora era de Pelotas, lá apareceram, para prestigiar a conterrânea. Não, aqueles eram diferentes: eu fora sorteada por puro acaso.

Ao final da reunião, enquanto três se retiraram discretamente, um deles se aproximou e falou, num tom de voz que só eu ouvi:

_ Parabéns pela reunião. É um encontro de amigos, não?

_ Sim _ falei. É uma confraternização com os pelotenses que moram em Porto Alegre.

_ Gostei tanto de ver a alegria de vocês, que gostaria de ler o seu livro, mas não tenho dinheiro para comprá-lo. A senhora se importaria de me dar um livro? – perguntou, com franqueza.

Nesse momento, ele deixou de ser penetra e foi com o maior prazer que autografei o seu exemplar.

Dois anos depois, no lançamento do segundo livro, reconheci o senhor mais velho, no meio dos convidados. Estava sozinho, sem a filha, com as roupas mais surradas ainda. Alguém contou que ela havia morrido, há poucos meses. Os penetras eram tão famosos, que até a sua vida pessoal começava a ser conhecida.

Mas, em meio ao tumulto da reunião, chamou-me a atenção um homem ainda jovem, com aspecto muito triste e desenturmado, colocado à distância. Julguei que fosse uma pessoa que eu conhecia pouco, que sofrera uma grande perda, ultimamente, e que outro me pedira para convidar. Num intervalo entre os autógrafos, aproximei-me dele, pretendendo ser simpática e hospitaleira.

_ Você é o Fulano, amigo do Beltrano? – perguntei, na maior cordialidade.

Pego de surpresa, ele respondeu, constrangido:

_ Não, sou um penetra. – Dando-se conta da confissão, tentou atenuá-la: Mas parabéns, a festa está muito bonita.

_ Pois então aproveite _ falei e saí de fininho, antes que o sorriso se transformasse em risada, tanta graça achei na trapalhada dos dois, minha e dele. Decerto era novato na situação, ainda lhe faltavam a desenvoltura e a manha necessárias a um penetra convicto. Ou não estava preparado para uma anfitriã tão hospitaleira e distraída.

De qualquer forma, esta crônica não pretende dissecar comportamentos, tarefa que pertence aos profissionais da área. Apenas, na cômoda posição de observadores, aproveitar a aprendizagem proporcionada pela comédia humana. E, de inhapa, se estivermos de bom-humor, rir das peças que os penetras, humanos ou caninos, nos pregam.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Penetra já é considerada uma profissão. Desde minha tenra infância tínhamos notícias destas pessoas, conscientes, que participavam de acontecimentos sociais, para passar bem e também para conhecer o "outro lado da vida"!Em algumas situações eram cômicos, mas em outras eram inconvenientes.
Adorei tua crônica. Mil lembranças e muitos risos, que fizeram, meu começo de domingo, alegre.

Beijos