31 de jan de 2007

Um pouco da Ásia - parte XIII - Phuket


Dentro do roteiro do navio, no percurso de cinco dias, há retorno a Cingapura, quando os passageiros em trânsito são solicitados a não descer, pois a parada será breve, apenas duas horas, para desembarque e embarque de passageiros.

Nesse momento, começamos a entender a charada: os asiáticos, em geral, apreciam o jogo. Sendo proibido em Cingapura,é costume seu realizar pequenos cruzeiros de dois ou três dias, com essa finalidade. Tanto na boate, como no bar onde nos reunimos, à tardinha, para ouvir música, quase sempre somos só os brasileiros. Os outros recantos também se conservam vazios, o que é incomum num cruzeiro turístico.

Concluo que teria sido melhor se a companhia turística houvesse escolhido outro navio. Este, embora luxuoso, não proporciona ambientes alegres e divertidos, como costuma ocorrer nos cruzeiros turísticos.

O terceiro porto em que o navio atraca, com possibilidade de descida, é Phuket, paradisíaca ilha tropical, localizada no Mar Andaman, na entrada norte do estreito de Málaca. Como muitas outras ilhas, a beleza de Phuket não se limita às praias. Com cerca de um milhão de habitantes, quase do tamanho de Cingapura, suas praias se estendem ao longo de colinas cobertas por vegetação, plantações de coqueiros e de borracha, passando por esplêndidos resorts e pitorescas vilas, um esplêndido universo tropical que ainda conserva seu caráter individual.

Mal desembarcamos do navio, somos novamente abordados por inúmeros taxistas, oferecendo os seus serviços. Como percebemos, em Penang, haver pago uma quantia acima da usual, aqui decidimos seguir o conselho dos outros companheiros de viagem e pegar o táxi fora do porto. Embora isso não deva adiantar muito, pois é óbvia a nossa condição de turistas.

No centro de informações, a funcionária nos transmite algumas e logo nos conduzimos ao primeiro táxi, solicitando que nos leve à beira da praia Patong. Ele insiste em nos levar antes ao centro comercial, pois deseja que conheçamos a fábrica de jóias. O preço combinado até o centro é 400 baths, moeda local, o trajeto com duração de vinte minutos. Após permanecermos pelo tempo desejado _ que ele espera seja grande, já que receberá comissão, se fizermos alguma compra, coisa que não diz, como é natural _ ele nos levará até a desejada praia, distante ainda uma hora, perfazendo seiscentos baths, ida e volta. Quarenta baths correspondem a um dólar americano. Fazemos as contas, o preço está de acordo com o anunciado pela funcionária, então concordamos em fazer a sua vontade, tranqüilos quanto à nossa capacidade de resistir às ofertas das belas jóias.

Entramos no Gems Gallery Phuket pela fábrica, onde podemos acompanhar o trabalho dos artesãos lapidando as mais diversas pedras. O complexo, que ocupa três acres da ilha,com mais de quinhentos funcionários, é considerado “o maior showroom de jóias do mundo”, segundo os folhetos de propaganda.

Após passar por vários compartimentos, desembocamos no primeiro salão, onde jóias de todo tipo e preço estão dispostas em dezenas de balcões. Solícitas funcionárias atendem aos clientes, procurando descobrir os gostos e fraquezas, enquanto mostram sucessivas peças, com certificação e garantia. São braceletes, pulseiras, brincos, pingentes de esmeraldas, rubis, topázios e o que for possível sonhar. Descobrimos aqui que supervalorizamos a resistência ocidental diante da perseverança oriental. Melhor não facilitar, na próxima vez.

Quando, enfim, conseguimos sair da joalheria, encontramos o simpático motorista de táxi, que aí nos leva a Patong, pelo caminho mostrando alguns pontos turísticos.
Passamos por muitos tuk tuk, meio de transporte local, com capacidade para duas pessoas, conduzidos pelo motorista. Esgueirando-se com rapidez e agilidade pelo meio do trânsito, são considerados perigosos e fomos aconselhados a não pega-los, embora sejam bem mais baratos que os táxis.

No início de 1970, Patong era pequena ilha de pescadores, com areia a se perder de vista. De lá para cá, transformou-se, com hotéis, supermercados, centros comerciais e de entretenimento. Oportuniza os mais diferentes esportes aquáticos, como esqui, windsurf, jet sky, mergulho, navegação à vela, bory board.

A praia, movimentado local turístico e comercial,é repleta de coloridos guarda-sóis e a baía ostenta luxuosos iates. Nas bancas espalhadas por todo canto, há marcas desde Rolex a Versace, os últimos softwares para computadores, por preços muito baixos. Mas tudo o que aqui se vê são cópias, como foi especificado no folheto fornecido no navio, a fim de evitar mal-entendidos.

Se houvesse mais tempo disponível para o retorno ao navio, gostaria muito de conhecer a baía de Phang-Nga Bay e a ilha de James Bond, próximas daqui, com seus altos penhascos surgindo da água e suas misteriosas cavernas. Para conhecê-las, no entanto, precisaria cerca de meio dia. Fica, pois, a frustração e o desejo de voltar. Pressinto que esse roteiro, por sua complexidade e variedade de oportunidades, não combina muito com horários restritos como os proporcionados por um cruzeiro. Apesar de que, devo confessar, foi o fato de incluir o cruzeiro o que mais nos atraiu nessa viagem, a princípio.

Como consideramos ser horário do almoço, escolhemos um restaurante e pedimos a lagosta gigante, prato típico, com três quilos e carne suficiente para quatro pessoas. Ela demora a chegar,mas é gostosa e de bom tamanho.

Após perambular um pouco pela praia, voltamos ao navio. As lanchas de retorno são de quinze em quinze minutos e logo chegamos.

Dois meses mais tarde, em dezembro de 2004, o terremoto de 8,9 graus na escala Richter abalará as profundezas do Oceano Índico e ondas gigantes atingirão Phuket e a praia de Patong, devastando o paraíso que conheci.

Demorarei alguns dias para conseguir olhar as notícias nos jornais.Lerei relatos de turistas sobre automóveis invadindo os saguões dos luxuosos hotéis, pessoas desesperadas se refugiando nos telhados dos edifícios mais altos; saberei que, dos navios ancorados, os passageiros assistiram à Ilha de Phuket desaparecer e dezenas de pessoas serem jogadas ao mar; tomarei conhecimento de que helicópteros levavam água e comida aos sobreviventes na província de Phang Nga.

Lembrarei o nosso alegre motorista, o garçom e as pessoas gentis que nos mostraram as belezas do seu mundo. Elas se acreditavam seguras, confiavam no próprio esforço para progredir.

Os tsunamis da vida levam os nossos sonhos. Quando sobrevivemos, só nos resta a reconstrução.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Um passeio inesquecível deve ter sido- uma mistura de irreal e real, para quem lê , mas para quem está vendo, deve ter sido mesmo fantástico!

Beijos