7 de abr de 2007

Chuva e frustração

Chovia torrencialmente, quando o navio atracou no porto de Ocho Rios, na Jamaica. As excursões estavam programadas para saírem às 9h, por isso, no deck 5, os passageiros, já aguardavam a chamada, como se o tempo lá fora não fizesse diferença. Muitos vestiam trajes de banho, por baixo das camisetas; todos portavam máquinas fotográficas, preparando-se para as fotos fabulosas que levariam como recordação do ensolarado e paradisíaco Caribe.

Ensolarado, disse eu? Enquanto tomamos o café da manhã, observando a chegada dos outros transatlânticos, a chuva escorre pelo vidro da janela, convidando a voltar para a cama.

É o terceiro dia a bordo, a primeira descida em terra, a oportunidade de nadar nas transparentes águas de cor turquesa, mergulhar com snorkel para ver os diferentes peixinhos coloridos, fazer um passeio no barco dos piratas ou percorrer a ilha, desfrutando da sua beleza. Contra toda a expectativa, chove, frustrando quaisquer planos.

Frustração é a sensação de impotência diante de qualquer mudança da situação ou dos planos elaborados com cuidado. O bebê chora, porque não consegue recuperar o chocalho que atirou longe ou porque a mamadeira demora; a menina se recolhe ao seu interior, diminuída, porque não foi convidada para a festa de aniversário da colega loira, aquela a quem todos bajulam; o menino esbraveja e agride com pontapés, quando é contrariado. Os jovens travam batalhas íntimas, frustrados em seus desejos, amargurados na aprendizagem de conviver com situações indesejadas. Ora são os adultos, pais e professores, que atrapalham os programas desejados, estabelecendo regras nem sempre entendidas, ora é a própria vida, colocando limitações, criando barreiras intransponíveis.

Homens e mulheres crescem enfrentando frustrações. São discriminados, desprestigiados, choram suas mágoas no silêncio do quarto, secam os olhos e vão para a sala ver TV, como se o mundo não estivesse desmoronando. Jogam cartas na praia, nas tardes de chuva, distraem-se no cinema no horário da festa para a qual não foram convidados. Aprendem a suportar a rejeição e a driblar a mudança do programa à última hora. Fortalecem-se, criam defesas, inventam mecanismos para sobreviver, descobrem o prazer de se reinventar.

Na infância e na juventude, vivemos os nossos momentos mais marcantes e sofridos, alguns dos quais depois serão transformados em divertidas recordações, perdido o gosto de fel pela ação apaziguadora do tempo. Mas as frustrações acumuladas são justamente as responsáveis pela sabedoria da maturidade. Pela tranqüilidade de olhar a chuva caindo e não se aborrecer, espernear ou começar a chorar. Pela possibilidade de outras alternativas que vêm à mente, quando os planos sofrem qualquer revés.

Aliás, “chuva” e “frustração” são palavras seguidamente atreladas. Inúmeras vezes a primeira atrapalhou os planos, ocasionando o surgimento da segunda. Quantas decorações precisaram ser modificadas quase à chegada dos convidados, porque festa ao ar livre exige pelo menos bom tempo; quantos passeios adiados, decolagens de avião postergadas.Em contrapartida, quantos transtornos também causa a falta de chuva.

Embora a perspectiva de passar um dia no conforto do Star Princess, cercados de mordomias, não mereça ser acrescentada ao rol das frustrações acumuladas numa existência, a falta da oportunidade para conhecer Ocho Rios causa certo pesar. Mas em qualquer situação é preciso aceitar com bom-humor as mudanças de planos e as alterações no roteiro, sem se transformar numa mala pesada e sem rodinhas para os companheiros de percurso empurrarem.Contudo, a chuva amaina, para surpresa nossa, e resolvemos desembarcar. Ocho Rios nos aguarda.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Como tudo na vida, existem os dois lados da moeda, e assim como saberíamos o que é bom, maravilhoso, se não sofrêssemos frustações?
O lindo, é que muitas pessoas tem a capacidade de superar o momentâneo inevitável, e colocar outro prazer no lugar.
Nada de curtir o que não pode ser mudado!

Beijos da Ruthe