11 de mai de 2007

Um pouco da Ásia - parte XXVI- A cidade proibida



Durante o governo de Kublai Kan, no século XIII, Pequim era conhecida como Kambaliq (a cidade de Kan), e era a magnífica residência de inverno do imperador. Durante a dinastia Ming, o imperador Yongle mudou o governo de Nanjing para Beiping ( Paz do Norte), depois trocou o nome da cidade para Beijing (Capital do Norte). A dificuldade para pronunciar o nome, no ocidente, fez com que fosse mudado para Pequim.

Na manhã do primeiro dia em Pequim, vamos conhecer a Praça da Paz Celestial ou Tiananmen Square. Nas escolas, a primeira página do livro sempre se refere à Praça, que significa a esperança e é o símbolo da pátria chinesa. Por essa razão, é sempre o primeiro ponto turístico visitado.

A Praça é o palco do povo. Construída no século XV, tanto a imperial realeza como os líderes comunistas apreciaram usa-la para desfiles militares e para proclamar leis e decretos.

Em primeiro de outubro de 1949, foi nessa praça que Mao Tsé-tung declarou a fundação da República Popular da China.

Também foi aqui que, em 1989, os jovens promoveram a primeira grande manifestação do povo chinês por reformas democráticas. O Massacre da Praça da Paz Celestial é algo que os chineses hoje desejam esquecer. Por isso, o guia turístico finge não ouvir a pergunta, quando um dos turistas brasileiros pergunta onde foi o local que o estudante afrontou os tanques do exército. “Aquele estudante que apareceu na TV” _ insiste o turista, referindo-se ao jovem que se transformou no símbolo da revolução. Mas, treinado para fugir a temas perigosos, o guia desconversa.

Em frente à Praça da Paz Celestial, considerada a maior praça do mundo _ atualmente, ocupa quarenta e quatro hectares _ ficam o mausoléu de Mao e o Palácio Imperial ou Cidade Proibida, conjunto de palácios que serviram de residência a 24 imperadores chineses, nas dinastias Ming e Quing, até a proclamação da República, em 1912.
A Porta da Paz Celestial ou Tian’anmen é a entrada principal da Cidade Proibida e é o lugar onde o imperador promulgava decretos e leis. É também o símbolo da Nova China.

Cinco pontes paralelas sobre o canal, com balaustres de mármore branco, conduzem às cinco portas da entrada. No tempo do império, a ponte e o portão central só podiam ser usados pelo imperador. Desde a chegada do partido comunista ao poder, essa ponte foi decorada com um enorme retrato de Mao.

A cidade proibida, hoje chamada Museu do Palácio Imperial, é composta por 890 edificações, com paredes vermelhas e telhados amarelos vitrificados. Rodeada por um muro de 10m de altura e por um fosso de 52m de largura e 3.800 metros de comprimento, ocupa uma área de 720.000 metros quadrados e tem uma superfície edificada de 150.000 metros quadrados. Por quinhentos anos, suas paredes representaram a linha divisória entre os donos do poder e a população em geral. Em 1949, o Palácio foi aberto à visitação pela primeira vez, permitindo o acesso ao mundo de imperadores, concubinas,eunucos, cerimoniais e esplendor.

Originalmente construído pelo imperador Yongle, entre 1406 e 1420, com a finalidade de aparentar poder, teve esse também a preocupação de demonstrar humildade diante da divindade. Por essa razão, o Palácio possui 9.999,5 aposentos, meio a menos que o Palácio de Jade dos Imperadores Celestiais.

Os edifícios que hoje podem ser visitados pertencem ao período posterior ao século XVIII, porque o fogo se encarregou de destruir grande parte das construções de madeira.

Inúmeros incêndios foram resultado de espetáculos de fogos de artifício. Invasores manchus também queimaram o Palácio em 1644 e eunucos fizeram o mesmo, em 1923,utilizando os archotes. Os guardas imperiais apagaram as chamas com água armazenada em imensas tinas de cobre ou ferro cobertas com pó de ouro. Na Cidade Proibida, 300 delas ainda existem, mas o ouro foi raspado pelos invasores, segundo conta Chau, o guia turístico.

Catorze imperadores da dinastia Ming e dez da Qing viveram na Cidade Proibida. Muitos se deixaram absorver pelo esplendor da vida dentro do Palácio, ignorando a realidade vivida fora de suas paredes.

A Cidade Proibida era dividida em duas partes: exterior e interior. A exterior compreendia três palácios principais: o Palácio da Harmonia Suprema, o Palácio da Harmonia Perfeita e o Palácio da Harmonia Preservada. Neles aconteciam as grandes cerimônias, as audiências e os banquetes solenes. A parte interior compreendia o Palácio da Pureza Celestial, o Palácio da União e o Palácio da Tranqüilidade Terrestre, e era onde o imperador vivia e atendia os assuntos rotineiros.

O Palácio da Harmonia Suprema, a maior estrutura no terreno da Cidade Proibida, decorado com 13.844 dragões, era usado em ocasiões especiais, como aniversários dos imperadores e coroações. À frente da Porta da Harmonia Suprema, estão colocados dois vigorosos leões de cobre, o macho à esquerda e a fêmea à direita, representando soberba e luxo. Em frente ao Salão, há uma tartaruga de bronze, simbolizando longevidade e estabilidade. No interior do Salão, o trono é guardado por duas bestas místicas, que era crença conhecerem todas as linguagens e serem capazes de cobrir léguas de distância em um só dia.

A Porta da Pureza Celestial é a entrada para o Palácio do mesmo nome, principal edifício dos três Palácios Posteriores. O Palácio da Pureza Celestial contém três palácios e seis pátios, onde viviam o soberano, suas esposas e concubinas. Este edifício continha nove quartos, cada um com três camas. Para se proteger de algum ataque enquanto dormia, o imperador escolhia uma cama diferente em cada noite.
O Palácio da Tranqüilidade Terrestre era o quarto de dormir das imperatrizes na dinastia Ming; durante a Quing, foi usado apenas três dias em cada reinado, como aposento nupcial.

Contudo, para meu desapontamento, a Cidade Proibida não tem o esplendor esperado, é provável que pelos inúmeros saques e destruições de que foi vítima. Ao vivo, não parece a mesma apresentada no filme “O último imperador”.

À entrada da Cidade Proibida, vêem-se muitos mendigos a esmolar; mulheres com bebês no colo estendem as mãos, andrajosas; insistentes vendedores dos livros turísticos puxam os turistas pelo braço, exigindo atenção. Também essa visão difere da esperada num país socialista.

Enquanto o guia Chau disserta sobre a história e os costumes chineses, colocado à pequena distância, outro chinês o observa. De repente, ele faz um sinal quase imperceptível para chamar a atenção de Chau, que fica muito desconsertado e interrompe a explanação. Aí Chau vai até o desconhecido, parece dar algumas explicações, nervoso, o outro retruca, ele se explica mais e acaba tudo bem, aparentemente. Chau volta para junto do grupo, mas está chateado. Deve ter contado aos estrangeiros algo que não agradou ao fiscal.

Na Cidade Proibida, por medida de segurança, não é permitido o acesso aos antigos aposentos imperiais. Os turistas, em grande número, se aglomeram nas portas, bloqueadas por cordões, tirando fotos ao longe de um trono ou uma cama, pois sobraram poucas relíquias, a maioria foi saqueada. Em geral, os turistas são os próprios chineses, mas há alguns japoneses.

A Sala dos Relógios, como chamamos entre nós, ou Palácio da União, como realmente se chama, embora não constasse do roteiro da excursão, logo nos atraiu, principalmente por estar quase deserta. É belíssima, com cento e cinqüenta relógios de água e mecânicos, profusamente decorados, presenteados aos imperadores, nos séculos dezoito e dezenove.

Observo que a Cidade Proibida está em fase de restauração, com escadas de madeira em vários locais, para os obreiros reformarem os telhados. Talvez isso contribua para a impressão não tão entusiasta de minha parte. Desde a fundação da Nova China, em 1949, a Cidade Proibida tem sido bem conservada. Maior e mais completo grupo de palácios do mundo, foi considerada pela UNESCO como Patrimônio Cultural Mundial, em 1987.

Aliás, durante o trajeto do ônibus pela cidade, notamos enorme quantidade de construções. A China utiliza metade da produção de cimento do planeta e um terço de todo o aço mundial. Uma curiosidade é que os andaimes utilizados nas construções são de bambu.

Bibliografia:
Best of Beijing – Lonely Planet
The Forbidden City – Die Verboten Stadt
Guias Oceano – China
Revista Terra – janeiro de 2006

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