15 de mai de 2007

Um pouco da Ásia - parte XXVII - Adeus, comunicação com o mundo ocidental



Para os turistas ocidentais, é provável que a maior dificuldade, na China, seja o idioma. É óbvia a impossibilidade de pronunciar, escrever ou sequer reconhecer qualquer frase, em mandarim. Em outras línguas estrangeiras, mesmo sem dominar o idioma, a gente consegue perceber alguma coisa, arriscar qualquer comunicação. Na China, tudo é diferente. Até a corriqueira mímica ocidental _ por mim já usada tantas vezes, em algumas com resultados satisfatórios, desastrosos em outras, mas sempre engraçados _ na China não funciona. O interlocutor fica nos olhando com um ar entre enigmático e desinteressado, apenas.

Após o passeio na Cidade Proibida, preferimos nos desligar da excursão, indo para o hotel mais cedo, a fim de descansar para o programa noturno.

Para pegar o táxi de retorno ao hotel, Chau, o guia turístico chinês, ensinou que apenas perguntássemos ao motorista do táxi se sabia falar inglês e mostrássemos o cartão do hotel, com o nome nos costumeiros caracteres chineses, para melhor compreensão. Assim fizemos, obtendo a resposta do motorista: _ Yes! Yes! _ enquanto acenava com a cabeça animadamente. Entramos no automóvel, esse em estado meio precário; ele deu rápida olhada no cartão do hotel e arrancou em disparada, como se conhecesse o endereço.

Após muito rodar, pediu, através de um gesto com a mão direita, para olhar novamente o cartão. Como éramos dois casais, um dos homens havia sentado no banco da frente, ao lado do motorista. Esse mostrou novamente o cartão, o motorista acenou com a cabeça, concordando, depois falou algumas palavras ininteligíveis e continuou na disparada. Àquela altura, já havíamos percebido que ele não sabia inglês e só não quisera perder a corrida.

Quando pediu para ver o cartão pela terceira vez, a sensação de pânico aumentou. Mas ele pegou o cartão em sua mão, colocou bem perto dos olhos, para melhor ver, e rapidamente guardou no próprio bolso. Aí alguém falou: _ Pronto! Perdemos o nosso link com o mundo ocidental!

_ Como todo homem, não é capaz de parar e perguntar _ falou a jovem companheira de viagem.

Caímos na risada, embora preocupados com a nossa situação. O chinês riu junto, contagiado pela risada ou solidário na desgraça, não sei. Rodou mais um pouco e zerou o velocímetro, reconhecendo com esse gesto que estava perdido.
Enquanto o chinês dirigia apressadamente o táxi, olhávamos os nomes das ruas em mandarim, sem nenhum ponto de referência. Foi possível perceber, contudo, que as bicicletas são em número menor do que o esperado, os automóveis tomaram conta do trânsito, a maioria em modelos antigos, todos sujos.

Nisso, o motorista teve um lampejo de clarividência e começou a se encontrar. Percebemos, pelo seu jeito atilado, virando numa esquina, passando a outra, ainda mais ligeiro, que finalmente sabia aonde ir. Quando menos esperávamos, estávamos em frente ao hotel, ele com ar muito orgulhoso de si mesmo. Despedimo-nos com grande cordialidade. Afinal, ele é que saiu prejudicado, pois espontaneamente terminou cobrando bem menos, já que a culpa era sua de não conhecer o caminho. Acontece que foram construídos tantos hotéis, últimamente, que os taxistas realmente se perdem.

Toda essa pressa em voltar ao hotel foi motivada pelo desejo de descansar um pouco, antes de partir para o programa noturno, o Circo de Pequim. Graças à atrapalhação do motorista, chegamos ao hotel apenas a tempo de trocar de roupa e descer voando, pois a van já nos esperava lá embaixo e o local é muito longe.

A entrada para o Circo dos Acrobatas custa U$20 e vale a pena. O local é simples, despretensioso, o palco é despojado. Mas os artistas começam as acrobacias e o encantamento obscurece tudo o mais. O espetáculo compensa qualquer esforço,inclusive o de quase nos perdermos em Pequim.

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