18 de ago de 2007

A farra das vaias

Foi ali pelos anos oitenta, pouco antes ou depois, que ao simples ato de competir foi dada grande importância. Aconteceram campanhas nesse sentido, motivando as crianças e os jovens ao esporte. Foi-lhes assegurado, na ocasião, através de insistentes propagandas (era o tempo da propaganda, o marketing chegou depois), que só o esforço já tinha mérito.

Era bonito, nesse tempo, valorizar o esforço, a garra, a persistência, ainda que o atleta não subisse ao pódio, no final. Comparava-se o progresso de cada um com o seu próprio desempenho.

Pena que essa campanha não foi lembrada, nos dias que antecederam os jogos do Pan-Americano no Rio de Janeiro. Os organizadores se preocuparam com tantos detalhes, até se perderam nas contas e extrapolaram em muito o planejamento financeiro (programaram gastar 414 milhões, gastaram cerca de 3,6 bilhões), mas esqueceram de ensinar aos participantes e à torcida regras básicas de boas maneiras.

Deu no que deu: numa demonstração inequívoca de falta de educação, os jogadores estrangeiros receberam vaias estrondosas até em disputas e apresentações que exigem silêncio e concentração. Foram vaiados na esgrima, na natação, no tênis de mesa, no nado sincronizado, na luta olímpica. Por ocasião da prova de 100m rasos, o corredor caribenho não agüentou e pediu silêncio à corrida brasileira, sendo também ele vaiado.

Até Oscar Schmidt, o astro do basquete, cestinha de ouro do Brasil, entrou na farra das vaias. Nem ele aprendeu a lição primaria: o importante é competir. “Vai cair, Chile, vai cair!” – azarou ele, puxando a vaia para os ginastas estrangeiros, seguida de outras, em que mostrou um lado seu que os admiradores preferiam desconhecer.

Menos mal que alguns atletas nacionais, como a ginasta Laís Souza, reclamaram das reações despropositadas de seus compatriotas, afirmando que no futebol as vaias são aceitas, mas em outros jogos o torcedor pode torcer, não vaiar.

Ainda que, em certas ocasiões, as vaias sejam válidas, principalmente se são a única forma de mostrar o nosso repúdio e descontentamento, os esportistas não merecem vaias, por estarem apresentando o seu melhor.

A imagem do Brasil no estrangeiro - já prejudicada pelas notícias amplamente divulgadas sobre corrupção, violência, caos aéreo, balas perdidas - bem podia dispensar essa demonstração de falta de educação e nulo espírito esportivo.

Aliás, o espírito esportivo, requisito importante para companheiros de viagens e parceiros em quaisquer empreitadas, era também incentivado em tempos anteriores, antes que o individualismo e o “sou mais eu” virassem moda. Ter os pés no chão, ainda que erguido às alturas pelas glórias do momento; preservar a dignidade na derrota e a humildade na vitória; saber ganhar e perder – eram itens com que os educadores se preocupavam.

Extrapolando os limites do esporte, essa aprendizagem ajudava a formar pessoas íntegras, generosas, solidárias - o tipo de gente hoje necessária para começar a construção do Brasil que merecemos. É, precisamos urgente de uma campanha que novamente nos ensine a respeitar aos adversários e a fazer o melhor que nos for possível, mesmo que ninguém nos entregue uma medalha por isso.

Um comentário:

Ruthe disse...

Marta!
Educação é uma coisa muito linda, mas não é para qualquer um ou qualquer povo!
Saber ganhar ou saber perder exige dignidade, respeito e ambos estão contidos na educação.
Fiquei e fico envergonhada, deste nível tão baixo de atitude.
Quando será que este País tão lindo, viçoso, terá um povo à altura desta magnitude?
Beijos da Ruthe