22 de set de 2007

Exame de consciência

Não é uma, nem duas; são diversas pessoas, das mais diferentes faixas de idade e condição social, todas com a mesma queixa: Pelotas é muito fechada.

Queixam-se os “estrangeiros” da má acolhida proporcionada pelo povo pelotense. A jovem, profissional bem sucedida, conta que foi ao comércio, na esperança e na pressa para comprar um vestido de festa; voltou para casa com o dinheiro dentro da bolsa e sem o vestido: ninguém lhe deu atenção, nas lojas onde entrou. “Talvez porque estivesse de abrigo e tênis”- justifica.

O homem, também ele profissional bem-sucedido, contou que, mal veio morar nesta terra, desejando se relacionar, adquiriu o título de um clube social e foi com a esposa à primeira festa. Vindo de cidade menor, onde era muito bem-quisto, imaginou que alguém da diretoria do clube – quem sabe o presidente ou o diretor social – viria lhes dar as boas-vindas. Imaginou apenas, porque foi simplesmente ignorado, a “sociabilidade” restrita ao nome do clube.

Uma a uma as histórias se sucedem, num rosário de queixas e tristes comprovações. A convivência é restrita aos locais de trabalho; ninguém convida para a sua casa – é a mágoa generalizada.

Para os jovens, que freqüentam escolas e universidades, é menos difícil o entrosamento; sofrem mais os adultos, sejam homens e mulheres solteiros ou casais. Contudo, muitos jovens também se fecham em grupos restritos, sem facilitar para o que chega, desejando se relacionar, sem conhecer ninguém. Provincianismo que, na juventude, é mais fácil de desculpar.

Está na hora de a Princesa fazer o seu exame de consciência e cair na real.
Se as famílias, pelo tradicional resguardo, têm dificuldade em abrir as portas das suas casas, o comércio e os clubes sociais, pelo menos, precisam ser hospitaleiros. É inconcebível que a antipatia chegue ao ponto de prejudicar os negócios, pois é o que acontece, quando o comprador desiste da compra, por mal atendido.

Qualquer pessoa, pobre, rica, mal-vestida, bem-vestida, tem o direito de ser atendida com educação. Inclusive, ainda que apenas pelo interesse comercial, é sinal de pouca inteligência julgar alguém pela aparência. Há pessoas que não fazem a menor questão de aparentar a condição financeira que possuem: pouco estão ligando para a opinião dos outros. Por isso o homem comprou à vista, em Porto Alegre, o automóvel que o vendedor da concessionária nem se dignou a lhe mostrar, em Pelotas. Também pela mesma razão outro foi ignorado, em várias concessionárias, porque não chegou motorizado à porta. Atendimento diferenciado recebeu _ para sua diversão _ quando tomou medida inversa.

E tem o caso daquele que, cansado de esperar, em frente ao atendente que falava ao telefone com outro cliente, resolveu pegar o celular e telefonar para a própria repartição pública onde estava, dessa forma conseguindo ser atendido.

Considerada cidade culta e educada, Pelotas até se deu ares de princesa. Com o tempo, foram-se as pompas, sobrou a pose. É hora de nós, seus filhos, aceitarmos o “puxão de orelhas” recebido daqueles que, escolhendo visitar ou morar em nossa cidade, não a podem considerar sua, por não terem sido recebidos com a hospitalidade e a gentileza merecidas.

5 comentários:

oyun disse...

thanks

Sergio Grigoletto disse...

Legal isso, de fazer uma análise da própria cidade.Qualquer hora, faço da minha.

Clever Martins Leitzke disse...

Parabéns você falou tudo. Pelotas e região vive muito de pose e pompa. Temos que cair na real e rever nossos conceitos (se é, que queremos de fato).

tirzams disse...

Concordo em gênero, número e grau. Sou de Rio Grande, e quando vim morar em Pelotas para cursar faculdade, fiz muitas amizades, mas com pessoas de outras cidades, que como eu, se sentiam excluídas. Parabéns pelo excelente artigo!

Ruthe disse...

Marta!

Como é difícil falar mal de nossa cidade, mas teu comentário é por demais justo.
sei de inúmeros casos de descriminação e sinto imensa vergonha e tristeza!

Beijos da Ruthe