15 de jun de 2008

Errar é humano

Errou? Não perca tempo se culpando ou arranjando justificativas. Reconheça o erro. Peça desculpas. Recomece.

Parece fácil? Só no papel. Na vida real, poucas pessoas possuem a necessária segurança para tomar essa atitude. A maioria prefere atirar a culpa para os outros ou apresentar justificativas, caso seja impossível escapar à responsabilidade.

Apesar da aceitação de que “errar é humano”, dificilmente alguém consegue assumir o seu erro, sem pelo menos encontrar uma explicação para ele. Difícil dizer apenas: “Errei, desculpa”. Acuado, o sujeito logo busca atenuantes, razões que o eximam da responsabilidade. Ou parte para o ataque, confundindo o outro. A técnica, embora velha, costuma funcionar na perfeição; a melhor defesa ainda é o ataque.

Descoberto, o vilão da história reverte a situação, jogando a culpa para a esposa, que não o acompanha ou entende; para o professor, incapaz de transmitir os conhecimentos de forma adequada; para a sociedade, que não cumpre com o seu dever. Como a acusação contém pingos de verdade, a indignação do prejudicado diminui, favorecendo ao transgressor.

Tanto como assumir o erro, pedir desculpas é atitude rara. Ilusão de superioridade, crença de ser mais que os outros, razões deve haver para a dificuldade em aceitar as limitações. Pessoas superiores não deveriam cometer enganos, lapsos, atrapalhar-se com números, perder prazos, como acontece aos simples mortais. Por isso, pessoas que se acreditam superiores sofrem tanto, quando erram.

Contudo, quando alguém assume seu erro, com humildade, o sermão perde a razão de ser, a raiva se desfaz; não há como reclamar, esbravejar, atacar. Tripudiar sobre o culpado é inconcebível, quando reconhece a culpa e se propõe a remediar, ainda que não tenha conserto. Como o cinzeiro de cerâmica que os filhos quebraram, na ausência da mãe, e logo colaram toscamente, juntando os cacos, para que ela não percebesse. Como o braço da estatueta de porcelana, colado pela funcionária com Super Bond, na esperança de que a patroa não notasse o estrago. O empenho em consertar a situação, ainda que redunde numa tentativa fracassada, vale como pedido de desculpas. Descuido ou azar, o responsável já foi castigado, não precisa que ninguém aponte o seu erro.

A dificuldade em se desculpar, ao contrário,, afasta pessoas que se amam, mas não conseguem transpor as barreiras colocadas por elas mesmas. Silenciar sobre os sentimentos é a mais eficiente maneira de cavar fossos nos relacionamentos, que poderiam fluir mais facilmente, se o ser humano não encontrasse tanta dificuldade em se expor.

É tão desconcertante receber um pedido de desculpas, que alguns marotos, se apercebendo do constrangimento causado pelo gesto, extrapolam, desculpando-se sem a menor sinceridade, na intenção de angariar benefícios. Mas pedir desculpas sem o comprometimento de mudar não tem o menor valor.

Além da humildade de reconhecer o erro, é preciso saná-lo, na medida do possível. Pagar o que se deve, desfazer o mal feito, desdizer o que se disse. Desculpar-se e ficar por isso mesmo seria muito fácil, primeiro passo para a sem-vergonhice assumida.

O autêntico “Mea culpa” exige o esforço para mudar, recomeçar em novas bases, fazer diferente, da próxima vez. Reconhecer o erro e pedir desculpas exige humildade. Perdoar e proporcionar nova chance exige generosidade. Qualquer das atitudes exige um tipo especial de pessoas, aquelas que merecem a paz de que usufruem.

3 comentários:

Nadison disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nadison disse...

Concordo plenamente com esta crônica, acredito que esse modo de agir que hoje esta impregnado em nossa sociedade deriva da atual cultura de se eximir das responsabilidades! As pessoas vivem um círculo vicioso de fuga, ninguém se responsabiliza pelos seus atos!

Adorei essa crônica!

Beijo!

Nadison.

Ruthe disse...

Marta!

Como é bonito um pedido de desculpa!Quem o faz, fica leve e quem o recebe, muda de atitude em relação à pessoa que o fez.
Errar é humano, mas desculpar-se é divino.

Beijos