23 de jun de 2008

Imperdível

O convite para a feijoada chegou com dois meses de antecedência, tempo suficiente para alterar a data da viagem a São Paulo, a fim de poder aceita-lo. “É uma reunião de velhos amigos, encontro anual, que costuma acontecer em junho”, explicou a anfitriã.

Um mês antes, sempre pela internet, veio o pedido de confirmação. “Imperdível”, responderam todos, fazendo compreender a importância do acontecimento.

Acompanhando a organização e os preparativos, foi fácil avaliar o carinho com que a confraternização era encarada. A turma, até então desconhecida para nós, salvo os anfitriões, se reúne uma vez por mês para uma pizza, em geral em restaurantes, eventualmente na casa de um e outro. Formou-se a partir de amigos de infância, acrescida primeiro por alguns colegas da universidade, depois pelas esposas e por outros amigos. A maioria convive há mais de quarenta anos.

Nesse espaço de tempo, muitas coisas aconteceram na vida de cada um. O importante é que se conservaram unidos, apesar dos pesares ou de algumas diferenças ocasionais. Amigos não são obrigados a ser da mesma religião, torcer pelo mesmo time de futebol, ter opiniões semelhantes sobre a política nacional. Podem ter diferente condição econômica, um morar na cobertura de luxo, outro preferir o sítio. No caso, todos precisam gostar de pizza ou pelo menos acreditar que o melhor ingrediente é a boa companhia, proporcionada pelo calor das velhas amizades, aquelas com quem podemos relaxar, sem nos preocupar com uma frase mal colocada ou sentimentos mesquinhos, quando por acaso alguém sobressai.

O sábado da feijoada amanheceu chuvoso. A casa onde se realizaria era distante da capital cerca de uma hora, precisando enfrentar o trânsito sempre agitado de São Paulo. Compareceram todos os convidados, alguns comentando os programas de que tinham abdicado, ao preferir esse. Imperdível, com certeza. A melhor feijoada já saboreada, decretou alguém. A reunião foi um sucesso e se estendeu até a noite. Sobrou tempo para todos colocarem os assuntos em dia, de vez em quando parando para se ver em alguma das fotos projetadas no aparelho de TV. No andar de cima, após o almoço, alguns descansaram nas cômodas poltronas reclináveis, outros assistiram a um filme. A jovem dormiu no sofá, agasalhada pela manta providencial. No térreo, a conversa corria solta, abafando a música ambiental.

Reunir amigos ou família dá trabalho, não há dúvida. Requer organização, um mínimo de interesse e uma dose extra de generosidade. Em geral, a casa fica suja, algum copo quebra; no dia seguinte, é preciso guardar pratos e travessas nos lugares adequados; a dona da casa tem sorte, quando não ocorrem imprevistos, como faltar gelo ou o vaso sanitário entupir. Reunir requer jogo de cintura, capacidade de driblar os inconvenientes, manter sob controle todas as situações.

Mas reunir amigos e familiares, - quem sabe separados, para cada um ter o atendimento desejado – pode ser gostoso e gratificante. Casas existem para serem usadas, se encherem de risos e conversas, de calor humano. Essa é a sua função.
Hoje, perdeu-se muito do hábito de conviver. Por comodismo, as pessoas se privam de momentos especiais, e esses são o que perduram na memória e fortalecem os laços. Comemorações são realizadas quase sempre em locais públicos, onde a descontração e a informalidade não são as permitidas pelas casas e apartamentos. Perdemos todos, carentes de convívio humano.

3 comentários:

Rogério Brodbeck disse...

Irretocável, querida Marta. Hoje nos encasulamos em nossas casas, sozinhos (porqueos filhso saem rua afora para curtir a vida, vemos TV, dormimos e nos esquecemos de nossos amigos, de convidá-los e aos parentes para conviermos uns com outros, curtir nossa casa juntos, enfim, aproveitarmos aquilop que só nós sabemos o que custou construir. Parabéns pelo teu texto, ele próprio "Imperdível"...
Um beijo!

Ruthe disse...

Marta!
Estamos deixando de usar tudo que temos de mais lindo, por comodismo. Deixamos de lado o aconchego do nosso Lar, por um lugar público, gelado.Dizem que são os "sinais do novo tempo",e num turbilhão vamos um atrás do outro.Realmente é uma lástima, mas está acontecendo, pelo mundo afora!
Beijos

Mary Lou e Luiz Fernando disse...

Marta,

Uma delícia de texto que você escreveu. O encontro com velhos amigos em nossas casas está ficando cada vez mais difícil de acontecer infelizmente. Porém não existe nada mais gostoso do que passar umas horas em companhia de gente tão simpática como você.
A feijoada estava ótima e o carinho dos anfitriões para com todos será inesquecível.
Adorei te conhecer. Esperamos nos ver novamente para desfrutarmos de companhia tão agradável.