5 de set de 2008

Rachel de Queiroz me perdoe

Na condição de avó iniciante, fui apresentada à crônica “A arte de ser avó”, de Rachel de Queiroz.

“Netos são como heranças; você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu” _ comecei a ler, concordando em gênero e número. “Mais filho que o filho mesmo”, Rachel assegura, já me fazendo franzir a testa, levemente intrigada. “Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. Epa! Ali estaquei, surpresa.

Filhos são feitos para crescer e se lançarem ao mundo, não para nos serem devolvidos, envoltos em cueiros.

Mas, implacável em seu desmesurado amor de avó, a escritora extrapola, falando no “entrave maior, a grande rival: a mãe”. Compara mãe e avó aos papéis de esposa e amante, nos triângulos amorosos: a mãe colocada na posição de educadora e megera, a avó como a confidente, a que tudo permite e concede. Imagino uma geração de mulheres fortalecidas em sua posição de avós pelo consentimento recebido da grande escritora. Mães e filhas, sogras e noras trocando farpas e lançando faíscas, na disputa pelo espaço maior no coração de algum guri esperto e observador, pronto a tirar proveito da situação.

Rachel de Queiroz me perdoe. Sendo a mulher inteligente que era, não acredito que tenha sido o tipo de mãe, avó ou sogra por ela apregoado na crônica que, como página literária, está muito boa. Como ensinamento para bem-viver, contudo, deixa muito a desejar.

A vida é feita de etapas e a grande arte consiste em viver cada uma plenamente, depois seguir em frente. Há o tempo de ser mãe, em que, além de educadora, é válido ser divertida, inventar brincadeiras, meter-se mato a dentro em passeios desbravadores, companheira para empreitadas inusitadas. Há o tempo de pegar no colo e contar histórias, tempo de ouvir outras tantas. Tempo de dizer “Vai!” e de falar “Espera!”; tempo de brigar e defender princípios que valham a pena, de fechar os olhos e ignorar o que não merece o desgaste de uma briga.

Depois, os filhos crescem e ganham o mundo. Saem em busca de conquistas, que enchem os pais de orgulho, como se suas fossem. Ferem-se e são feridos, como já muito aconteceu aos pais, mas dor de filho dói mais que qualquer outra já sentida. Voltam, quando é certo que lá ficou o refúgio garantido. Recuperam-se e retornam à luta, fortalecidos pelas certezas que levam entranhadas. Filhos têm o seu lugar cativo.

Nesse ir e vir, as mães continuam suas vidas, desenvolvem interesses; se viveram todas as etapas da maternidade, estão prontas para aceitar outros papéis. Entre esses, um dia, surge a experiência de ser avó. É um novo caminho, divisão de tarefas e incumbências, multiplicação de carinhos. Não é o resgate da mocidade, a compensação por outros amores frustrados, sequer a oportunidade de compensar tudo o que a vida levou. Nem a hora de abandonar todo o resto e se entregar inteira a essa única tarefa e interesse, como se de repente tudo o mais se tornasse secundário.

É a aprendizagem de recomeçar do zero, refazer os passos, com maior sabedoria e humildade, aberta a novas fórmulas e modernismos. A certeza de que, nos bastidores, sem alarde ou estrelismo, há outro papel a desempenhar.

6 comentários:

Ruthe disse...

Marta!
Fiquei muito surpresa com o pensamento de tão ilustre escritora, à respeito deste tema.
Não gosto de comparações, para começar, de parentescos, de cidades, países, de nada em absoluto, porque cada um tem seus encantos particulares - nada se sobressai ou anula.
Dando-me licença, permaneço com teu pensamento!
Beijos

Anônimo disse...

Marta,
há algum tempo recebi por email o texto da Rachel de Queiroz, e pensei comigo: que lástima, ela nunca foi avó! Cumprimentos pela crônica.
Clara Macedo.

Camila disse...

Olá Marta!
Aqui quem escreve é a Camila sobrinha da Isa e do Marcos!
Queria dizer que adoro seus textos e que eles me fazem refletir muito!!Este último está maravilhoso!

Grande abraço

Camila G. dos Santos

Sonia Gaino disse...

Gostei muito de sua reflexão... Realmente, para cada tempo um papel definido... Ser mãe é maravilhoso... ser avó também...sentimentos e papéis que não se misturam... bjo.

carlins disse...

Os comentadores, infelizmente, não entenderam a crônica de Rachel de Queirós. Ela não subestima em momento nenhum o papel da mãe. Não compara avó em detrimento da mãe!Ela expressa a transformação de ser avó que sente falta dos filhos, quando crianças. E como avó tem todo o direito de amar aquela criancinha como se fosse seu filho, são amores novos a que os avós têm direito.

Anônimo disse...

Eu entendi exatamente assim, na maior grandeza e doçura das palavras e de ser avó que sou.. Ameei❤