9 de jul de 2009

Com a palavra, o paciente

No meio da conversa, referi-me ao contato feito com determinado médico, através do número do BIP fornecido por ele. Sem deixar completar a frase, a amiga perguntou, admiradíssima: “E ele te atendeu? Ele mesmo?”. Pelo seu espanto, dei-me conta da grande distinção que recebera. Distinção que não foi dirigida a mim, de maneira nenhuma, mas à paciente do momento, que por acaso era eu.

Mas aí o assunto pegou fogo, na sala, e eram queixas e mais queixas, cada um com a sua história de descaso médico, falta de compreensão do momento de fragilidade em que o paciente se encontra, quando procura apoio do profissional.

Entre as queixas, a mais freqüente era o bloqueio feito pelas secretárias, nos consultórios, quando cerram fileiras e impedem o acesso ao médico, donas da situação. Consulta para hoje ou amanhã? Nem pensar. Tanto faz se você deseja apenas uma palavrinha confortadora do médico ou se acredita prestes a ter um infarto, disposto a pagar a consulta particular, não há argumento que modifique a situação: “O doutor só tem horário para o próximo mês”. Quando não é para agosto, estando em junho.

Recém chegada à cidade, sem conhecer outro médico, tendo procurado o único que lhe havia sido recomendado, a paciente ouviu essa resposta e, com razão, ficou furiosa. Tentei confortá-la, dizer que não desistisse do médico, por sinal excelente, afinal ele nem soubera que fora procurado, descartada a paciente já pela secretária. “Mas a secretária obedece às ordens” _ ela respondeu, justificando o motivo pelo qual desejava outra indicação.

Em defesa dos médicos, alguém argumentou que, se utilizam o recurso do bloqueio feito pela secretária, é porque alguns trabalham demais, não têm qualidade de vida, assim não é possível, médico também se estressa.

Nesse ponto da conversa, a jovem mãe entrou no assunto, contou que a pediatra saiu em férias, deixou o nome de outra a ser procurada, em caso de necessidade. Na sua ausência, os pais tiveram dúvidas sobre algum procedimento. Como a pediatra substituta estivesse com os horários preenchidos, as informações foram transmitidas através da secretária; os pais nem conheceram a substituta. “Pediatras têm direito a férias, óbvio, mas como é que a gente fica, numa hora dessas”?_ foi a pergunta desamparada.

Aí lembrei o resultado do telefonema que desencadeou a discussão ferrenha e completei o assunto, aproveitando a pausa na conversa. Pois, mal acessei o BIP, constrangida por incomodar o médico no feriado, logo tive o seu retorno. Desligado o telefone, após breve troca de informações, o aparelho tocou novamente: dessa vez, era o assistente, dizendo que vira o meu chamado no BIP, talvez o titular não pudesse atender, mas o que eu desejava? Poderia me auxiliar?

_ “É isso o que eu digo” _ quase gritou o marido da paciente que só conseguiria consulta dois meses depois, ao ouvir o desfecho da história. “Esse deveria ser o atendimento corriqueiro. Se alguns médicos possuem tantos pacientes que não conseguem atendê-los, se outros não conseguem sair em férias, por que não formam equipes, com titular e assessores, e ficam todos contentes”?

Equipes de médicos garantiriam a tranquilidade dos pacientes e a qualidade de vida dos médicos, que poderiam viajar para congressos, passear, descansar, sem deixar desatendidos e aflitos os seus doentes. Tão simples, parece, mas não deve ser. E aqui se fala de atendimento particular e de convênios, imagine-se a saúde pública, os corredores superlotados dos pronto-socorros.

Um comentário:

Ruthe disse...

Sei que existe muita reclamação de mau atendimento, por parte de alguns médicos. Mas eu nunca passei por nada parecido, muito pelo contrário, acredito ser, talvez, uma privilegiada, pois só tenho a agradecer, aos médicos que me atenderam e aos hospitais, onde recebi o maior carinho e precioso atendimento.