1 de ago de 2009

Como as coisas poderiam ser

Quando se está confuso ou sem parâmetros, bom recurso é olhar para os lados. Faz-se isso, quando se viaja para outras terras. Costumes diferentes, lugares nunca vistos nos fazem pensar e comparar. Sem que nos demos conta, fluem idéias de como as coisas poderiam ser.

No aeroporto de Garulhos, em SP, olhei o quadro de voos e enxerguei Passo Fundo, muito bem instalado no mapa. Voos de São Paulo diretos para Passo Fundo? Sem escalas em Porto Alegre, com risco de perder a conexão? Com preços razoáveis? Fiquei com inveja. Admito: inveja da mais pura, regada a certa indignação. Não contra Passo Fundo, que até despertou a vontade de conhecer.

Aliás, sem saber a quem dirigir a minha indignação, continuei pensando no assunto, enquanto aguardava o voo para Porto Alegre. Qual a diferença entre Pelotas e Passo Fundo? Porque os cidadãos de lá têm oportunidade de vôo direto SP/Passo Fundo e os de Pelotas precisam desembarcar em Porto Alegre e continuar viagem por terra, mais três ou quatro horas de deslocamento? Ou pagar outro tanto, se resolverem utilizar os aviões da NHT, caso consigam lugar? Em geral, apesar da desproporção do preço da passagem em relação à quilometragem percorrida, não há lugar no vôo, se a passagem não houver sido providenciada com antecedência.

Curiosa, lá fui eu para a internet, atrás de maiores informações sobre Passo Fundo. Maior cidade do norte do estado, possui área de 780.355 quilômetros quadrados (Pelotas: 1.609.000); população estimada em 195.000 habitantes (Pelotas:345.000, pelo Censo de 2008);a economia se concentra basicamente na agropecuária, mecânica, vestuário, alimentação e indústria de óleos; renda per capita de R$12.968,00 em 2005 (Pelotas:R$8.248,00); a taxa de analfabetismo é de 2,18%, bem inferior á taxa média brasileira de 11,40% (Pelotas:4,3%, em 2006);a média de leitura é a maior do país, 7 livros por pessoa ao ano.

Quem sabe esses últimos dados explicam a circunstância de ser pólo em saúde e a Capital Nacional da Literatura?

Sabe quando a gente está morta de inveja, louca para dizer que a rival é ignorante, malvestida e antipática? Aí olha para ela e vê que até poderia ser boa amiga, se as circunstâncias fossem outras? Pois é, acontece. Aconteceu comigo e com Passo Fundo: invejei o povo, capaz de vencer dificuldades enormes, quase desaparecer (no final da Revolução Farroupilha, sobraram 60 pessoas em precárias condições, no povoado), fortalecer-se e mostrar ao país a força de sua raça.

“Só falta Passo Fundo ter shopping Center”, pensei, roída de despeito. Voltei para a internet, salva-vidas a que me agarro, nas crises de assumida ignorância. Tem shopping Center, sim, acho até que mais de um.

Mais adiante, leio que a cidade é conhecida como “terra de gente boa”. Vôo direto para São Paulo, shoppings centers, renda per capita maior, taxa de analfabetismo menor, pólo de saúde, capital da literatura? Precisa dizer que a gente é boa? Nem vou me informar sobre a representação política na Câmara Estadual, na Federal e no Senado. Se, pra completar, Passo Fundo for terra de eleitores mais politizados e responsáveis, vou parar de olhar pros lados. Só pra não sofrer.

Um comentário:

Ruthe disse...

Querida Marta!

Concordo contigo: é melhor não olharmos para os lados, para melhor sobreviver, com menos decepções e afastar de nossa maneira de ser, este pecado capital que é a INVEJA!!!!!!