13 de jun de 2010

As cadeirinhas e o politicamente correto

Há coisas sobre as quais manda o bom-senso não se fale, se não se quiser passar por louco, retrógrado, alienado ou “fora da casinha”. Situações estranhas acontecem, sob nossos olhos, e muitas vezes optamos por não enxergar, para não precisarmos nos posicionar contra o considerado “politicamente correto”. Em outras, o absurdo da questão parece tão grande, que não resistimos a emitir uma opinião. Talvez pela esperança de que melhores argumentos nos sejam colocados, provando a seriedade de medidas não compreendidas por nós. Ou que, se muitas pessoas se manifestarem com o mesmo pensamento, aquelas responsáveis pelas decisões se vejam compelidas a pensar mais sobre o tema.

É o caso do uso obrigatório das cadeirinhas e “bebês conforto” em automóveis, transformada em determinação a ser cumprida, em todo o país, sob risco de multa e perda de pontos na carteira de habilitação, caso algum motorista seja flagrado sem ela, tendo uma criança (até sete anos) no interior do seu veículo.

Num primeiro momento, a determinação do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) poderia soar pertinente, pela argumentação de que grande parte dos acidentes com morte, de que as crianças são vítimas, acontece em razão da falta do transporte adequado. Por outro lado, é preciso observar a viabilidade da determinação, se ela pode ser cumprida, na prática, e todos os possíveis desdobramentos da obrigatoriedade. Alertar sobre a conveniência de qualquer atitude; educar, para que ela se torne uma necessidade, é serviço de utilidade pública; obrigar, com ameaças de represálias, retirando qualquer alternativa, foge ao bom senso.

Ainda num primeiro momento, a situação ideal é essa mesma: crianças transportadas em segurança, cada uma na sua cadeirinha. Epa! “Cada uma na sua cadeirinha”? E se alguém tiver três filhos? Ninguém tem? E se forem gêmeos, trigêmeos? Trigêmeos bebês ainda poderiam usar três bebês conforto, ocupando todo o banco traseiro do automóvel; só a babá (caso houvesse) ou a avó-auxiliar é que precisaria ter paciência e ir de táxi (ou de ônibus), a cada vez que a família precisasse se locomover. Inclusive para ir ao postinho ou ao hospital. A partir de um ano, trocado o bebê conforto pela cadeirinha, já seria impossível.

Isso sem falar no preço das cadeirinhas (entre R$400,00 e R$500,00, em território nacional). Será que o Estado pretende criar uma bolsa-cadeirinha? Ou essa é uma medida para os pobres ficarem em casa, pararem de passear com seus filhos? Transportá-los em motos e bicicletas, como muitas vezes se observa, realmente é loucura, mas agora nem no “fuquinha”? E como será nos táxis? Estuda-se que carreguem a sua cadeirinha, se pretendem aceitar passageiros acompanhados de crianças. Mas, como são três tipos, para serem usados conforme a idade, os táxis precisarão carregar os três? Ainda na hipótese (irreal) de que coubessem, que espaço sobraria para as malas dos passageiros? E os ônibus, teriam bancos específicos para crianças? Surgiu, inclusive, a idéia de que os pais carregassem as cadeirinhas, quando saíssem com as crianças. Haverá idéia mais absurda que uma mãe, necessitando sair com o filho, precisar levar a cadeirinha, além de tudo que já precisa levar?

Criança (principalmente se for pobre ou tiver irmãos) tem mesmo é que ficar em casa, segundo alguns legisladores, preocupados com a sua segurança. Mas isso não seria como proibir que jovens freqüentem festas e baladas quaisquer, pois em todas correm o risco de consumir bebidas e drogas? E, se o crack está nas ruas, não seria melhor que ficassem em casa, resguardados? Ou, por outro lado, o certo será educar, conscientizar e criar condições para que as crianças e os jovens sejam protegidos?

A determinação do Contran, que iria entrar em vigor no dia 9 de junho, foi adiada para setembro, por insuficiência de cadeirinhas à venda. Há tempo, portanto, para que vigore o bom senso. Embora ninguém tenha conseguido segurar a campanha dos Kits de primeiros socorros obrigatórios em todos os automóveis, desencadeada alguns anos atrás. Todos foram obrigados a adquiri-las (possuíssem ou não algum conhecimento sobre primeiros socorros); lucraram aqueles que as vendiam; tornaram-se desnecessárias, depois de adquiridas por milhões de motoristas. Espera-se que o mesmo não ocorra agora.

Em tempo: quando a neta comemorou o primeiro aniversário, em lugar de um brinquedo, presenteamos com a cadeirinha, para ser utilizada quando com os pais. Valeu a sua carinha de espanto e felicidade, quando se viu em posição mais alta, sentada para a frente, podendo observar o que se passava na rua. Recentemente, julguei conveniente ter outra comigo, pela liberdade de passear com os netos, que agora são dois. Mas isso foi opção pessoal, muito antes da determinação do Contran. Só que o fato de já ser a “feliz portadora” de uma cadeirinha não me impede de ver o problema de outros, sem essa possibilidade.

Um comentário:

Ruthe disse...

Sou muito falante e sempre tenho respostas para quase tudo, mas agora fiqui sem fala, e fui acertada por um "branco", por saber de tanta incoerêrencia!
Inacreditável!

Beijos