11 de jun de 2011

Provas de amor

Placidamente sentada na poltrona de veludo azul, a cabeça praticamente vazia de pensamentos, fui acometida por um desejo incontrolável de comer um bife feito na hora, daquele tipo que pula direto da frigideira para o prato, mal passado, suculento; coisa de dar água na boca, só em pensar.

Naquela época, eu fazia (ou recebia?) um tipo de quimioterapia cujo maior inconveniente era o enorme cansaço que proporcionava, acompanhado do vazio de idéias. A vantagem era o cansaço ter dia previsto para começar, estendendo-se por período também determinado.

Sabendo dessa ocorrência, podia me organizar com antecedência, inclusive pelo fato de ficar num pique animadíssimo, nos dias que antecediam aos de pasmaceira total. Assim, na véspera, costumava fazer as compras necessárias e deixar a despensa preparada para quaisquer situações.

Estando em São Paulo, hospedados no apartamento do filho solteiro, costumávamos pedir as refeições por tele-entrega, nessas ocasiões, para facilitar. Pois aconteceu que, naquele dia, sentindo o desejo incontrolável de um suculento bife, lembrei que, apesar de não prepararmos as refeições em casa, tinha seis lindos tournedos no freezer, à espera do momento apropriado, por não ter resistido à compra, ao vê-los apetitosamente arrumados no pratinho de isopor, no balcão do supermercado.

O desejo transformado em necessidade imperiosa me obrigou a agir. Com esforço, levantei-me da poltrona, fui até a cozinha, preparei duas xícaras de arroz, tirei os filés do freezer, deixei óleo, sal e frigideira sobre o balcão da cozinha. Exausta, voltei para a poltrona e esperei. Dali a pouco, chegou o marido. Contei do meu desejo de comer um filé e ele se prontificou a encomendar do restaurante. Eu, que nem sou mulher de desejos (nem na gravidez, quando podia ter aproveitado), falei: não serve, tem que ser feito na hora.

O marido _ daquele tipo que mal entra na cozinha para pegar um copo de água _ argumentou que nunca fizera um bife, não tinha nem idéia, impossível. Sua única experiência culinária fora uma sopa de peixe, quando escoteiro, a qual nem ele tivera coragem de comer. Mas, diante das circunstâncias, lá foi ele para a cozinha, após as devidas explicações, enquanto eu arrumava a mesa para três, pois logo o filho deveria chegar.

Mal ele colocou os bifes na frigideira quente, a fumaça começou a infestar o apartamento; acostumados a cozinhas funcionais, não havíamos percebido que aquela não possuía exaustor. Nesse momento, chegou o filho, escandalizado com a fumaça e o cheiro de bife que já sentira no elevador. Imaginou que o porteiro, desacostumado daquela cozinha funcionando, logo subiria, para saber do ocorrido. Aliás, “não era mais fácil encomendar os filés?”.

Para piorar, como no dia seguinte seria o meu aniversário e, pelos cálculos, eu já estaria menos cansada, o filho contratara um serviço de bufê e convidara vários amigos para jantarem conosco. Ao pensamento de “a fumaça vai ficar impregnada nas cortinas!”, começamos, eu e ele, a ventilar o apartamento, escancarando as janelas, em pleno agosto. Enquanto isso, o cozinheiro completou o seu trabalho e, muito orgulhoso, apresentou os três tournedos, encerrando os questionamentos.

No ponto perfeito, os filés foram saboreados quase em êxtase, misturado o sumo ao arroz soltinho. O filho reconheceu que “da frigideira para o prato é diferente”, o marido resolveu preparar outro, o filho gostou da idéia e foi aprender. Fiquei no primeiro, mais não precisava.

De lá para cá e antes disso, muitos presentes e provas de amor tenho recebido. Nenhuma tão marcante como a lembrança de um cozinheiro improvisado, numa cozinha enfumaçada, preparando o mais delicioso bife que já comi.

Um comentário:

Ruthe Nudilemom Peters disse...

Maravilhoso, emocionante. Viva o AMOR!