9 de set de 2011

Outros tempos, outras vivências



Remexi o baú e, em crônicas anteriores, puxei lembranças do início da minha vida na Fazenda da Figueira, interior do Município de Pedro Osorio, quando recém casada e dona de casa iniciante.

Naquela época (início da década de 70), usufruíamos de algumas regalias a que já me referi, modernidades então incomuns no meio rural, como o gerador de energia, a rede de água potável e a luz de bateria em lugar das velas ou dos lampiões usados em outras propriedades. Da mesma forma, os meios de comunicação eram eficientes.

Entre a sede e as casas dos posteiros, localizadas em pontos estratégicos do campo, a comunicação era feita por telefone interno, permitindo combinar atividades e saber o que ocorria no outro extremo da propriedade. Quando as chuvas se prolongavam, ameaçando enchente grossa, o Orocildo telefonava, avisando que o rio Piratini estava subindo e por isso tinha começado a retirar o gado para outro local, onde não correria perigo. Era comum a água do rio subir com assustadora rapidez, lembrando o pânico da enchente de 1959, quando a família do Elmiro precisou se resguardar sobre o telhado da casa inundada, até o socorro chegar.

Quando, no inverno, a chuva persistia por dias, ameaçando enchente, a dúvida era entre permanecer na sede, que poderia ficar ilhada por dois ou três dias, ou vir para Pelotas, onde tínhamos casa, bem pouco habitada. Era comum preferirmos ficar lá, inclusive para administrar melhor os problemas ocasionados pelas águas.

Quando vieram os filhos, como encarávamos com naturalidade os desmandos da natureza, por termos sido os dois criados no meio rural, tudo continuou igual. Lembro especialmente de certa tarde, no inverno, quando a chuva caía, há vários dias, como se São Pedro houvesse esquecido alguma torneira aberta no céu, e, antes que a estrada ficasse interrompida, o marido perguntou se haveria problema em permanecermos lá ou se preferia sair antes que fosse tarde. Com a casa organizada, despensa abastecida, farmácia caseira com previsão para várias eventualidades, respondi que preferia ficar. Por sorte, tudo correu bem até o sol voltar e o trânsito ser restabelecido, fazendo acreditar num anjo protetor de olho pregado em pais jovens.

Porque, para a época a que me refiro, até que a nossa situação era das mais tranqüilas. A maioria dos nossos amigos passava maiores dificuldade, principalmente pela circunstância de estarem mais longe dos recursos, de maneira geral. Doenças infantis, por exemplo, ocasionavam primeiramente uma incursão ao livro A Vida do Bebê, do Dr De Lamare. Se as recomendações do livro não surtissem efeito, procurava-se o médico, o que representava uma viagem a Pelotas ou a consulta médica intermediada pela sogra, no meu caso.

A comunicação com a cidade era feita através do rádio, marido e mulher com licença de rádio amador e consciência da necessidade de falar somente o essencial, pois a conversa não era particular, constituindo-se em distração para outros. Embora, algumas vezes, também déssemos risadas dos diálogos ouvidos, por acaso. Na cidade, o rádio ficava no apartamento dos sogros e eles é que faziam o meio de campo, conforme as nossas solicitações.

Em outubro, começava a esquila (tosa da lã ovina), que durava um mês. Os esquiladores eram terceirizados e tinham a sua própria cozinha improvisada. A combinação era receberem a carne, diariamente, por isso o abate de ovinos era intensificado. Independente do café da manhã, às 9h o cozinheiro da parceria preparava um churrasquinho para a turma. Os peões também tinham o costume do churrasquinho a essa hora, quando os meninos da casa, atraídos pelo cheirinho da costela de cordeiro no espeto, ignoravam as recomendações paternas para não perturbarem e se achegavam com jeito de quem só quer olhar, sendo obsequiados com as melhores partes pelo velho Saldanha.

Na época da esquila, o programa preferido meu e dos dois guris era sentar sobre as bolsas de lã e assistir ao trabalho rápido e minucioso das tesouras cortando a lã, na intenção de preparar as ovelhas para o verão e de usufruir da renda proporcionada pela entrega, na Cooperativa de Lãs, num tempo em que a lã valia bastante e, por isso, o rebanho ovino era enorme.

Eram outros tempos, outras vivências. Nem melhor, nem pior que o tempo de hoje; apenas diferente.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ah... Dr Delamare! Este livro deve ter vendido a grande maioria dos seus exemplares para mães que moravam no interior do RS!! Se era bom ou ruim, isto não sei; o que posso dizer é que todos sobrevivíamos à ele e à inexperiência de nossas pobres mães que, como até hoje, tinham que fazer a escolha entre o que "era preocupante" e o que não! A Sra me fez voltar à uns 40 anos atrás, na difícil opção entre ficar isolado pela chuva (e só poder sair 3-4 dias depois que abrisse o sol) ou sair antes que todas as estradas se tornassem intrafegáveis! Certamente tempos diferentes; nem pior nem melhor... tenho minhas dúvidas!
Rosana.

Marta disse...

Ah...Rosana, digo eu. Quem sabe foi ele quem te inspirou a seguir o mesmo caminho, pelas muitas vezes vezes em que deves ter visto a minha querida amiga (que falta faz!)às voltas com ele?
E também lembro bem daquele problemão com as estradas...Por isso digo que não era o meu caso, mas aquela época forjou heroínas. Beijo, querida.