11 de nov de 2011

Uns e outros

Em crônica anterior, aproveitando o mote da leitura de um livro, referi-me a “gente do bem” e “gente do mal”, o último grupo sendo aquele que “tem outro por dentro”, ou seja: finge ser uma coisa e na verdade é outra, muito diferente; pessoas perigosas, cuja maledicência é preciso reconhecer e cujo convívio é de bom senso evitar.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, em “Mentes Perigosas”, refere-se a eles como psicopatas, sociopatas e outros nomes aceitos na área médica. Cidadãos comuns pensam neles como “do mal”, e assim a eles se referem, perplexos, aqueles que já os encontraram em seu caminho. Sem precisar dizer mais, todos entendem que o sujeito é perigoso e incorrigível.

Quer dizer, todos entenderiam, se a verdade fosse declarada e seus feitos divulgados. Só que a gente “do bem” costuma ser discreta e, por isso, conta somente aos mais próximos, quando é vítima de algum mau caráter. E não alardeia a verdade por diversas razões, além da discrição: receio de estar equivocada, de ser considerada fofoqueira, de ser mal interpretada, por ter se colocado na situação em que se tornou vítima.

Como ocorre a uma mulher, assediada por profissional bem conceituado, em seu local de trabalho. Se nenhuma outra contou experiência semelhante, a vítima prefere esconder o fato, para não provocar o pensamento “algo ela deve ter feito para acontecer logo com ela”. E, dessa forma, protegido pela discrição e a vergonha de ter sido vítima, o vilão da história está livre para continuar agindo. Até que exagere na repetição dos fatos e a verdade comece a pipocar, aqui e ali, desmascarando-o.

Por falar em vilão, a escritora também chama a atenção, no referido livro, para a mudança de comportamento, na sociedade brasileira, cada vez mais condescendente com os bandidos, tanto nas novelas como na vida real. Nas primeiras, é comum os espectadores torcerem pelo mau caráter, em geral apresentado como mais inteligente, ardiloso, em detrimento do “herói”, quase sempre irritantemente ingênuo e fácil de enganar, deixando-se enrolar pelas artimanhas do outro; na vida real, além da aceitação implícita no conceito “ele rouba, mas faz”, basta o sujeito ser poderoso para as falcatruas passarem em brancas nuvens, bem-vindo em todas as rodas, como se não fosse o sem-vergonha por todos conhecido.

A essa tolerância, cada vez mais acentuada na sociedade brasileira, cabe grande parte da culpa pelo descaramento que tomou conta da classe política, invadindo inclusive outras áreas, sempre tidas como de total idoneidade.

No fundo, os vilões de cada história sabem que, se uns acobertarem aos outros e todos conseguirem se safar com os bolsos cheios, jurando inocência, ao fim de pouco tempo voltarão ao poder e a novas oportunidades para se aproveitar dos tolos, que somos nós.

Mas gente do bem só encontra seus iguais quando compreende, pelas repetidas experiências desastrosas, que más amizades e maus líderes não merecem apoio; quando se posiciona, cobra atitudes corretas e castiga ou afasta do seu convívio os malfeitores; quando descobre que há muita gente boa, por esse mundo afora, e é perda de tempo conviver com outro tipo de gente.

Um comentário:

Ruthe disse...

Estamos rodeados de gente do mal que se faz passar por gente do bem, e como são pessoas "além de qualquer suspeita", a camuflagem é perfeita!Todo cuidado é pouco, e felizes de quem percebe o engodo e pode cair fora!