15 de jan de 2012

Não falta alguém que conhece a história

A certa altura de sua autobiografia, o tenista Andre Agassi lembra palavras ouvidas de Nelson Mandela, o líder negro: “Temos que cuidar uns dos outros _ essa é a nossa tarefa na vida. Mas, além disso, temos que cuidar de nós mesmos, o que significa que temos de ser cuidadosos em nossas decisões, cuidadosos em nossos relacionamentos, cuidadosos em nossas declarações. Temos de administrar nossa vida cuidadosamente, para não nos tornar vítimas”. As palavras de Mandela foram definitivas para Agassi, num momento em que buscava, mais que tudo, entender a si mesmo. Próximo aos 30 anos, ao mesmo tempo em que exagerava no comportamento de adolescente revoltado e rebelde, ele se ressentia com as reações da mídia e dos fãs às suas atitudes grosseiras e impensadas. Qualquer pessoa razoável, ao ler tudo o que Agassi conta sobre si mesmo _ com franqueza tão grande quanto a sua modéstia _ espera um desfecho trágico ou desagradável, após cada episódio. Ele, contudo, sentia-se injustiçado, sem perceber que ajudava a aprofundar o poço onde se afogava. Quem nunca viu ou viveu esse filme? É comum as pessoas compararem o novo ano a um livro com páginas em branco à espera que cada um escreva a sua história. Seria muito bom se, a cada ano, pudéssemos recomeçar do zero, passando a borracha em tudo o que aconteceu no passado. Melhor seria se, independente de data, pudéssemos fazer uma mudança radical, sempre que nos apetecesse, como quem troca os móveis da sala, quando cansa da decoração. Só que, na vida, as coisas não acontecem assim, como bem disse Mandela. Em vez de se assemelhar a um novo livro _ comparação que eu também já devo ter feito, anteriormente _ a vida mais parece um seriado de televisão, em que as cenas se sucedem, interligadas, umas em conseqüência das outras. Assim como as gentilezas costumam provocar sentimentos agradáveis, as grosserias e os malfeitos provocam rejeição; mentiras precisam de mais mentiras, até a primeira ser desmascarada e não haver lugar para mais nenhuma; depois de uma falcatrua dificilmente não vem a seguinte, enquanto o espertalhão se acredita seguro. Descobertas, as pessoas recebem rótulos pelo seu comportamento, em cada situação, e depois passam dificuldades para provar que mudaram, quando gostariam de esquecer o passado e anular tudo o que disseram ou fizeram. Sempre sobra alguém que conhece a história e lá vem aquele assunto novamente, manchando a imagem arduamente elaborada. Somos responsáveis pelas nossas escolhas, pelas decisões que tomamos, em detrimento de outras; pelos relacionamentos e os caminhos que, através deles, trilhamos; por todas as coisas que fazemos: algumas bobas, sem que causem mal, outras perniciosas, trazendo conseqüências e arrependimento. O livro da vida só possui todas as páginas em branco no momento mágico do nascimento. A partir dali, todos os atos e omissões podem ter conseqüências. E não adianta querer arrancar certas páginas, para apagar o que nunca deveria ter sido escrito. Não falta um fofoqueiro pra tirar cópia e divulgar justamente o que pretendíamos esconder. Mas, a cada novo ano, lembramos que podemos virar a página e recomeçar, sem anular o que já foi escrito, apenas mudando a continuação da história. Porque virar a página significa apenas isso: fazer diferente, procurar outra forma para atingir a paz, o prazer e a felicidade a que todos temos direito. Por trazer essa esperança, o novo ano é sempre bem-vindo, mas só chegaremos felizes ao final se lembrarmos de, além de cuidar dos outros, também cuidarmos de nós, essa pessoa especial pela qual somos responsáveis.

Um comentário:

Ruthe disse...

Bárbaro este e-mail. Tuas crônicas, para mim, são como consultas ao psiquiatra.
Mil beijos, querida amiga!