21 de jul de 2012

De quem é a culpa?

O casal _ na faixa dos 60 anos _ ocupou a mesa reservada, com antecedência, no restaurante chique. Conversavam, tranquilamente, até serem interrompidos pelo barulho na mesa ao lado, onde se instalaram duas mães e dois meninos, já grandinhos, comunicando-se aos gritos.

A mulher chamou o garçom, discretamente, e pediu para mudar de mesa. Como o restaurante ainda não estava cheio, o casal foi conduzido para outro espaço, num canto mais reservado, onde puderam retomar a conversa. Logo, porém, foram surpreendidos pela passagem das mesmas mães com seus pimpolhos, que também haviam decidido trocar de mesa. Ao passar pelo casal, a primeira indagou, em tom agressivo: “Se incomodou com o barulho das crianças”?

Sem querer provocar mal-estar no ambiente, a mulher respondeu, no tom mais educado que conseguiu: “Como ainda não tenho netos, estou desacostumada ao barulho de crianças”.
De certa forma, pega de surpresa, a mulher preferiu assumir a culpa por desejar tranquilidade, ao sair com seu marido. Poderia ter dado muitas outras respostas, que deixariam a mãe indignada, mas talvez suscitassem comentários que a fizessem pensar, ao relatar o caso a outros, como decerto faria, julgando-se dona da razão.

O direito de uns acaba quando começa o dos outros. Restaurantes são espaços públicos, onde o desejo de privacidade deve ser respeitado. Crianças não têm culpa por seus maus modos, gritos ou porque os pais não têm com quem deixá-las em casa ou preferem que corram entre as mesas _ como muito tenho visto _ incomodando os outros clientes, para que eles tenham um momento de paz.

Crianças são seres em formação e podem ser adoráveis, quando limites lhes são impostos. De acordo com a idade da criança, alguma atividade pode ser prevista pelos pais, para que se distraiam, pois a espera para eles é muito chata:levar o DVD ou caderno e lápis para os pequenos; permitir que outro leve um joguinho ou brinque com o tablet.

O restaurante em questão possui um belíssimo espaço para crianças, com excelentes monitoras. Muitas crianças preferem permanecer lá e vir à mesa apenas na hora exata de se alimentar; outros pais optam por ficar localizados nas mesas próximas ao divertimento dos filhos, para evitar o vai e vem e controlar as brincadeiras. Há formas educadas e inteligentes de sair com os filhos, sem incomodar quem “não os pariu”.

Em outro restaurante, almoço de domingo, muitas famílias com crianças, como é natural. Num grupo de amigos, uma mãe teve a feliz ideia de trazer alguns brinquedinhos de casa e esparramá-los sobre o tapete na espaçosa entrada do restaurante, onde três crianças também se esparramaram, passando a brincar. E ali ficaram, felizes da vida, obrigando os que chegavam ou saíam a se desviarem delas. E (pra não falar só das mães) um solícito pai ainda se deslocava de sua mesa, vez por outra, para abastecer o filhote, direto na boquinha, com o alimento que lhe apetecia.

Numa situação dessas, a direção do restaurante, por seu lado, fica numa saia justa, por não querer perder nenhum tipo de cliente. Só porque os pais não tiveram o bom senso, se a ideia era desfrutar de total liberdade, de permanecer em seu próprio ambiente, convidar os amigos, pedir a tele-entrega.

Mas, sem dúvida, vítima inocente, a mais prejudicada é a criança consentida, que recebe a lição errada justamente das pessoas que mais deveriam amá-la e prepará-la para a vida. “Faz tudo o que quiseres” _ é a mensagem que recebe, quando faz algo inconveniente e conta com apoio incondicional. Só que o resto do mundo não pensa assim e breve a criança, o adolescente e o futuro adulto serão rechaçados pelos outros, sem paciência para aguentar seus destemperos ou invasões de espaço.

5 comentários:

Anônimo disse...

Apezar de ter netos e uma coisa que me encomoda muito em um restaurante e o vai e vem das crianças .O ideal e ter um espaço para a familia( com as crias ). Ai , nos, as vovos comemos em paz !!!

Maribél Mathias Lopes Schenatto disse...

Perfeito, Marta! Infelizmente, isso, ocorre constantemente!!! É sempre um prazer ler tuas crônicas!! Grande abraço

Martha Laeticia Cattani Bazarov disse...

"Sensacional, Marta. Como tenho visto esta cena e se meu filho estivesse junto já diria:"Onde estão os pais destas criancinhas"? Bjs"

Denize Hallal disse...

"É, Marta!!! Sinal de novos tempos. Temos visto estas cenas tão seguido, não??? Infelizmente."

Adriana Schossler disse...

"Adorei!!!!!"