15 de set de 2012

Travessuras do pensamento

Pois eu estava bem compenetrada, fazendo uma analogia entre os temporais provocados pela natureza e aqueles que viram as vidas pelo avesso, quando o pensamento começou a pular, inquieto, trazendo lembranças de temporais e arco-íris. E logo me vi rindo, pois o moleque tem esse dom de transportar para outros tempos e transformar em comédia o que na ocasião foi visto como tragédia.

Mas bem que eu podia receber um prêmio por teimosia, pelas tantas vezes em que, confiante na sorte, persisti na organização de comemorações ao ar livre, sem pesquisar o que a meteorologia anunciava para a data, geralmente aniversário de um dos filhos, na fazenda. Aliás, se bom senso houvesse, talvez ficasse na primeira, aquela em que, subitamente, o céu ficou negro, os convidados terminaram a refeição às pressas e correram para os carros, abaixo de chuva e vento, receosos da estrada, perigosa nessas ocasiões. Sobraram os donos da casa, com o desapontamento da festa gorada, até saber, pela comunicação através do rádio amador _ a única então existente _ que as cidades próximas enfrentavam uma de suas piores enchentes, tendo ficado sem energia elétrica por alguns dias. Permanecemos na fazenda, onde o gerador elétrico garantia certa normalidade. Era o ano de 1982.

Não sei se, naquela época, o serviço de meteorologia era ainda desacreditado ou não era tão fácil o acesso, como ocorre hoje, através da internet, mas a verdade é que continuei ignorando-o, como se o desconhecimento pudesse favorecer meus planos festivos.

E, entre tantas, lá estávamos nós, novamente, organizando uma comemoração maior que as outras, convites todos feitos, hóspedes paulistas sendo esperados, quando o tempo começou a mudar, poucos dias antes. Os planos foram sendo adaptados, enquanto qualquer ideia de cancelamento era escorraçada, principalmente pelo transtorno que causaria aos oriundos de São Paulo.

Até a véspera do dia programado para a comemoração, os preparativos continuavam, como se o mais lindo sol fosse esperado: persistiu a ideia do churrasco no fogo de chão, ingredientes para saladas e acompanhamentos foram trazidos de Pelotas, sobremesas variadas foram elaboradas, arranjos de flores foram feitos para as mesas, enquanto as mesas e cadeiras eram lavadas. Muita organização se tornava necessária, por ser tudo preparado em casa.

Até a noite anterior, quando chegaram os hóspedes, o tempo se segurou, dando esperanças de que o presente do aniversariante fosse o dia ensolarado. Perto do amanhecer, começou a chuva torrencial. Sem alternativa, fomos obrigados a mudar os planos, radicalmente: num mutirão de esforço, abaixo de chuva e vento, mesas, cadeiras, toalhas, enfeites, pratos e talheres, tudo foi levado para o galpão, que por sorte estava vazio, por ter sido recentemente reformado.

Aconteceu, porém, que o responsável pelo churrasco, amigo de sempre, sem querer abdicar do fogo de chão, preferiu manter o seu posto, sob a proteção do telhado de zinco, ficando distante do tal galpão. Como não se contraria o cozinheiro, ficou acertado que seria assim, apesar da certeza de que de que faria falta a sua presença mais próxima, além de que o pessoal aprecia ficar junto ao fogo, preparando caipirinhas e aperitivando.

Com a chegada dos corajosos convidados, abaixo da chuva torrencial, aos poucos a situação se normalizou e o galpão se mostrou providencial. Por isso, a dona da casa não acreditou, quando observou a movimentação dos primeiros convidados, mudando-se com mesas, cadeiras, decoração e tudo o mais para onde permanecia o assador, para ficarem perto dele e, óbvio, da carne que começava a cheirar, apetitosa. Pois a chuva continuou, a cântaros, os amigos se espremeram sob o telhado de zinco, o churrasco ficou delicioso, essa história teve final feliz e só eu não assimilei a lição que a meteorologia pretendia me ensinar.


7 comentários:

Rita Corrêa disse...

Adorei Travessuras e fiquei imaginando a cena...

Uxa disse...

deve ter sido uma farra! e falar em chuva aqui pros paulistas dos dias de hoje parece coisa de outro mundo. a seca por aqui tá que tá braba, só as flores estão amando! bjos, marta, bjos

Silvia Simões disse...

"Um lindo momento de paz ao ler Travessuras do pensamento".

Maria Thereza de Mello Xavier disse...

Marta, querida, tuas crônicas são sempre um enriquecimento para quem as lê.

Patricia Fernandes Ferreira Voigt disse...

Adorei!!! Sugestão para a próxima festa: guarda-chuva de lembrancinha para os convidados. Bjs...

Ruthe Peters disse...

Esta crônica me fez lembrar um dos bailes do Longuinho do Dunas Clube. Eram toalhas voando, enfeites de mesa rolando pela grama, pois eram frutas. A presidente chorando mais que o tempo, uma tragédia. E, depois, como colocar aquele povo todo dentro do clube?

Regina Weycamp da Cruz disse...

"Querida Marta! Adoro as tuas crônicas. Sòmente quem passa por essas situações sabe "do sufoco" . Mas, como ótima anfitriã te saites muito bem!"