24 de set de 2012

Saci- Pererê

Vez por outra, como já confessei, o pensamento parece aquele moleque sapeca, o Saci-Pererê. Quando menos espero, ele sai na disparada, parecendo pular numa perna só. Menos mal que, por um resto de consideração, espera que complete a crônica em andamento, antes de se mandar a mil por hora, saltitante e feliz.

Na intenção de distrair, ele me pega pela mão e saímos os dois a pular de lembrança em lembrança, num passeio imperdível. E, num instante, estou na Fazenda da Figueira, novamente, dessa vez preparando a recepção para um grupo de ingleses e australianos, que manifestaram interesse em conhecer uma empresa rural, representativa da economia do extremo sul do Rio Grande do Sul.

A companhia turística, agradecida pela boa vontade em receber, informa que não é necessário oferecer nada aos visitantes, pois o ônibus virá da cidade de Bagé, onde os turistas terão almoçado, e depois seguirá para Pelotas, onde lauto jantar está programado. Mas imaginar que, numa estância, visitantes programados possam chegar e sair com um copo de água é duvidar da hospitalidade gaúcha. Assim, considerando o horário em que o ônibus chegaria, prontificamo-nos, a nora e eu, a preparar um agradável chá, ao ar livre, aproveitando que o parque estava bem cuidado, gramado verde e aparado, canteiros floridos, o que nem sempre se tem a sorte de ocorrer.

No dia combinado, à tarde, o ambiente foi preparado, sob os toldos brancos e os guarda-sóis coloridos, pois o sol estava forte: uma mesa grande para o chá e os acompanhamentos; mesas menores e cadeiras para o pessoal relaxar, por se tratar de pessoas de mais idade; toalhas verdes e vermelhas; um arranjo floral sobre a mesa maior. Com o cenário preparado, voltamos ao interior da casa, para tratar dos últimos detalhes.

Nesse momento, o tempo “começou a virar” e o céu escureceu, prenunciando chuva grossa. Com bom senso, o funcionário perguntou se não seria melhor desarmar os toldos e guarda-sóis e retirar as toalhas. Sem acreditar que toda a nossa boa vontade recebesse como recompensa tal castigo, aceitei que retirasse as toalhas, mas deixasse o resto, pois não haveria tempo hábil para recompor o cenário, antes que turma chegasse.
Aí veio uma daquelas típicas chuvas de verão, tocadas a vento, arrancando galhos das árvores, levando por diante o que encontrasse. Voaram, retorcidos, os frágeis toldos e os guarda-sóis, o parque próximo a casa ficou prejudicado pelos galhos caídos.

Parou a chuva; um telefonema informou que os visitantes iam demorar; retomamos o serviço, no mutirão costumeiro, funcionários e nós a recompor o cenário, agora o chá transferido para o interior da casa, para evitar novos riscos. A mesa foi arrumada na sala de jantar, com bolos, bolachinhas, geleias, sucos e chá. Engolimos o desapontamento e consideramos que estava bem, para as circunstâncias.

De repente, o sol retornou, tímido. O telefone tocou, o ônibus demoraria meia hora para chegar. Olhamo-nos, a nora e eu: sem pensar muito, retomamos o mutirão de retorno ao parque, uns carregando toalhas, bolos, sucos, garrafas térmicas e jarras com leite, outros recolhendo galhos, secando calçadas, entre risadas e pressa. A sombra das árvores substituiu os toldos e o cenário ficou perfeito, como tudo que se faz com o coração.

Chegaram os estrangeiros, ficaram felizes com a recepção inesperada, saborearam sem pressa os quitutes, caminharam pelo jardim, querendo saber o nome de cada árvore, e jamais imaginaram o sufoco por que tínhamos passado. Só eu fiquei sem os toldos e guarda-sóis, que precisariam ser mais resistentes para enfrentar o otimismo e teimosia de certas pessoas.

4 comentários:

Ruthe Peters disse...

De vez em quando nos deparamos com desafios, que nos assustam, mas que resolvemos muito bem, depois de pensarmos um pouco.
Beijos da Ruthe

Luciana do Valle disse...

É uma delicia quando abro meu computador e tua crônica está lá, com chuva ou
com sol, sempre divertida....

Geni Tavares Camargo disse...

Maravilhosa a crônica, o humor e a iniciativa. Bjs...

Patricia Voigt disse...

Realmente, tuas cronicas são uma delicia, nos transportam para dentro delas. Esta, está divertidissima. Hoje mesmo, me surpreendi ao fazer cara de surpresa quando o tempo mudou e a chuva chegou, e entregue a leitura quase me levantei para ajudar no mutirao, hahahaha...