15 de jul de 2003

Permissão

É proibido sentir tristeza. Na dinâmica e tumultuada vida moderna, tal sentimento é visto com maus olhos e afasta as pessoas. Ao primeiro sintoma, logo surge a pergunta: “Estás deprimido?” Rápido, outro justifica: “Deve ser stress”. Compreendemos, então, que estes dois estados de espírito, depressão e cansaço mental, são aceitos e compreendidos. Considerados sinais da atualidade, quando não levados ao exagero, eles até acrescentam algum status à pessoa atingida, como símbolo de engajamento na luta diária, demonstração de que não é alienada, percebe a convulsão do mundo à volta e se aflige com ela.
Tristeza, no entanto, deve ser evitada. Quando morre o pai ou a mãe, os familiares enchem a criança de atividades e programas divertidos, para ajudá-la a vencer o momento; as amigas procuram envolver a viúva em tarefas várias, no intuito de amenizar a dor; falamos para não pensar mais nisso e trocamos de assunto, quando o amigo nos conta que sofre a dor de uma traição qualquer. Acostumados a superficialidades, temos medo dos sentimentos profundos, esses que nos fazem perder o rumo, por vezes.
Não falo do exagero de ficarmos presos ao passado, mas acredito que precisamos nos permitir sofrer; fazer de conta que nada aconteceu seria tirar a importância do já vivido ou do papel que determinadas pessoas desempenharam em nossas vidas.
Precisamos chorar todas as lágrimas pelo amado que partiu, pela traição pressentida, pelos sonhos desfeitos ou as esperanças frustradas. Necessitamos descer ao fundo do poço, esmiuçar o nosso sofrimento e questionar a sua razão. Mais que isso, é preciso que aprendamos a nos perdoar, quando encontrarmos a culpa no âmago da nossa dor. Praticar conosco a mesma solidariedade que concedemos aos outros.
Somos todos aprendizes do ato de viver. Não temos todas as respostas, nem sequer as perguntas adequadas; erramos, pedimos desculpas e tornamos a errar. Só o que nos redime é o desejo de acertar.
Em meio a tudo isso, temos o direito de sofrer pelas perdas e os desencontros, não podemos fingir que não fomos atingidos, sob pena de afogarmos também as emoções benfazejas, nesta ânsia de nos anestesiarmos.
Só o tempo sabe como curar as dores da nossa alma. Dizemos “nunca mais”, acreditando que agora tudo acabou. Numa tarde qualquer, percebemos o calor gostoso do sol na pele nua; depois, sorrimos do beija-flor, batendo com o bico na janela do quarto, como pedindo licença para entrar; ou, súbito, notamos o guarda-roupa antiquado e desejamos uma peça nova. Pronto, começou a recuperação. A perda não diminuiu de tamanho, apenas foi aceita, passou a ser parte da nossa história. Compreendemos que a nossa raiva, a não aceitação e a amargura não serão capazes de mudar o quadro e conseguimos superá-las, porque precisamos e desejamos continuar.Mas só conseguiremos fazê-lo se nos tivermos permitido sofrer, sem vergonha, sem medo, integralmente. Para nos esvaziarmos da tristeza e merecermos toda a alegria que nos espera.

Crônica publicada na Antologia de Letras 7,de Roque Gonzales, RS

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