11 de fev de 2004

A semente da dúvida

A experiência de viver algumas semanas num apart-hotel logo obriga a várias considerações e mudanças de paradigmas. Na primeira vez, estranhei o espaço reduzido, os poucos armários, o mínimo de pratos e talheres; não acreditei que o microondas e a cafeteira resolvessem a questão alimentar. Na segunda, sendo terrestre o meio de locomoção, levei a torradeira para facilitar a refeição matinal; na terceira, incluí a pequena churrasqueira elétrica. Como os eletrodomésticos iam e vinham, a bagagem foi aumentando, arranhando o meu conceito de pessoa prática, além de propiciar questionamentos sobre o necessário e o excesso transformado em incômodo.

Na praia, o tempo passa preguiçoso. Os amigos se reúnem, ora a pretexto do mate amargo, ora da caipirinha ou da caminhada à beira-mar. Depois, acontece o churrasco na bem organizada churrasqueira do hotel, ou na minúscula do apartamento: alguém chega com a cerveja, outro prepara o aperitivo e um terceiro traz as cadeiras necessárias. Ninguém argumenta falta de espaço para receber; se os copos ou talheres são insuficientes, cada um traz os seus.

O espetáculo do pôr do sol é motivo de encontro e admiração. Ao nosso redor, alguns batem palmas quando ele se esconde no horizonte; alguém chora, decerto a recordar outras dores, lamentar outros finais. Acostumada ao entardecer no campo, onde o sol se despede em discreta grandeza, transformando o céu em inimaginável aquarela, observo com certa ironia esses arroubos entusiásticos. Parece-me que o astro-rei também sorri, por julgarem que ele fica diferente, só por freqüentar um balneário elegante.

Assim correm as férias, os dias esticados, a noite invadindo a madrugada pela desobrigação de levantar cedo. Curto a liberdade da vida doméstica, o distanciamento dos problemas criados por nós mesmos: a exacerbada importância do pó sobre a mesa ou embaixo da poltrona, as refeições à hora certa, o telefone lembrando o compromisso. São aulas de praticidade, descobertas de novas formas para solucionar pequenos dilemas. Quase acredito ser possível mudar o ritmo, fugir de tanto stress, priorizar só o que vale, realmente, nesta vida: os relacionamentos, amores e amizades. Penso ter aprendido a lição de quanto é pouco o necessário; convenço-me de que o supérfluo atrapalha, cada vez que mudo o lugar da mini-churrasqueira, afinal sem utilidade.
Sem tomar consciência, volto aos trilhos antigos, no retorno ao cotidiano, ainda incapaz de alterar a rotina das atividades assumidas e inventadas. Contudo, a semente da dúvida germina. Poderia a vida toda ser simplificada?

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