15 de mai de 2004

QI e QE, duas siglas em harmonia

Testes de inteligência sempre me intrigaram. Antes, possuir um alto quociente intelectual parecia garantir sucesso. Depois, a observação mostrou o equívoco. Alunos com os primeiros lugares nas escolas nem sempre mostravam o mesmo desempenho na vida profissional e sentimental; algumas pessoas, consideradas com inteligência acima da média, levavam com muita dificuldade a vida familiar e amorosa. Excelentes em números e cálculos, elas administravam mal o seu próprio negócio; capazes de elucidar problemas intrincados, não conseguiam detectar os sintomas de crise no ambiente familiar.

Ao se aprofundarem na estranheza desse comportamento, em meados dos anos noventa, estudiosos chegaram à conclusão de que o fator emocional independia do grau de inteligência e era ele o vilão nesses casos. Fora descoberta a existência do quociente emocional.

Isso significa que alguém pode ser muito inteligente, mas ter deficiências emocionais capazes de prejudicarem sua ascensão profissional e a qualidade de vida. Pode ter medo de viajar de avião, receio do contato humano, dificuldade em conviver e muitos outros problemas que costumamos reconhecer no nosso comportamento e no de diversas pessoas com elevado nível de eficiência em outras áreas. E isso acontece, embora, em sociedade, aprendamos a esconder nossas inseguranças, criando fachadas que funcionam como camuflagens. Podemos bancar o arrogante quando estamos morrendo de medo; dizer uma piada atrás da outra, no intuito de parecer à vontade; fingir grande atividade para não demonstrar a falta de rendimento no serviço.

De qualquer forma, mesmo para uma leiga como eu, constituiu grande alívio essa compreensão, pois eu já dera tratos à imaginação, questionando os tais testes de inteligência. Ao observar alguém muito rústico, sem estudo algum, organizar a sua vida familiar com brilhantismo, em contraste com alguns letrados que trocam os pés pelas mãos e embaralham tudo, eu imaginava que devia haver algum outro fator significativo. Assim, quando começou a ser citado o quociente emocional, julguei haver completado o quebra-cabeças.

Percebi o meu engano, quando também comecei a encontrar a expressão “inteligência social”, que seria a habilidade para conviver socialmente, perceber os “sinais sociais”. Teriam tal inaptidão, segundo entendi, pessoas pouco ligadas em hábitos de higiene, descrentes da importância de tomar banho, colocar desodorante ou escovar os dentes; crianças que têm o hábito de bater nas outras; adultos ou jovens que se atritam com facilidade, entre outras inúmeras características.

Com essa explicação, como estrelas surgindo pouco a pouco no firmamento, as idéias começaram a tomar forma. Mas, do mesmo modo como aquelas parecem se multiplicar, impossibilitando a contagem, o pensamento se expande em mil possibilidades. Entre elas, a acalentadora constatação de que, ainda que não sejamos originalmente brilhantes, com determinação e força de vontade podemos nos superar, se conseguirmos desenvolver o quociente emocional e a inteligência social. Em sua esteira, a certeza de que esse conhecimento nos obriga a sermos mais compreensivos e solidários com os que não sabem agir de forma diferente e com os que sequer percebem a necessidade de mudar.

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