24 de jul de 2004

O galope do corcel

O pequeno “botton”, recebido numa esquina qualquer, trazia a inscrição: “A hora é agora”. Guardei-o em lugar acessível, perturbada com a mensagem implícita. Busco nela a inspiração, quando, invadida pelo desânimo e a apatia, quase me deixo convencer de que devo esperar passivamente, enquanto outros lutam pelos meus interesses.

É costume comparar a sorte a um cavalo encilhado, que passa correndo. Podemos montar e seguir, quando estamos preparados; se não, ele passa e o perdemos. Assim, além de estar preparada para agarrar a sorte e saber o que fazer com ela, quando aparecer, antes precisarei reconhecê-la como tal. Na tropilha de corcéis em disparada, perceber com rapidez qual o mais ágil e apto para me levar na direção certa.

Isso pode parecer muito complicado para alguém, como eu, que há muito obrigo o cavalo a ficar extático, no momento de montar. Contudo, lá estou, com a roupa e a bota adequadas, acarinhando o seu pescoço e proferindo palavras tranqüilizadoras, talvez dirigidas mais a mim que a ele, quando desconhecidos um para o outro. Assim, terminamos por nos acertar e partimos os dois para a aventura de retornarmos juntos. Não como acontecia na minha juventude, que ele chegava antes, correndo, esbaforido, só com as rédeas; eu vinha mais tarde ou era encontrada pelo caminho, humilhada pela queda, trazendo o pelego, a carona, os arreios e a cincha, recolhidos no percurso.

Tantos percalços tiveram o mérito de me ensinar: desisti das loucas galopadas, aprendi a contemporizar e a utilizar o meu próprio ritmo.
Por outro lado, se ficarmos sentados, esperando, corremos o risco de nem perceber o galope do corcel à nossa frente; apenas assistiremos o desfile da nossa própria vida se esvaindo. Sonhamos com o grande momento _ o prêmio na loteria, o nome na lista do vestibular, o homem ideal, o diploma de arquiteto, o final de semana naquele hotel badalado _ e nos sentimos injustiçados, quando percebemos que nada acontece.

Facilitamos as coisas, quando compreendemos ser a vida um constante aprendizado, embora alguns nos transmitam a impressão de tirá-la de letra. A maioria das pessoas não fala das suas mazelas por ignorar que as cenas se repetem, dentro das paredes discretas de todas as casas. Outros gostam de fingir para si mesmos que tudo lhes sucede de maneira fácil, por serem mais inteligentes, bonitos ou espertos. Quando conhecemos a história real, surpreende-nos a nossa ingenuidade, ainda acreditando em histórias da Carochinha.

Oportunidades não caem do céu direto na minha mão, repito a mim mesma, quando preciso sair novamente à luta, procurar o caminho adequado, encontrar o contato certo. São tantas e tão complexas as alternativas, que é comum bater o desejo de ignorar tudo, puxar o lençol e esconder a cabeça, permanecer na proteção do meu pequeno mundo, sem mais inquietudes, esperanças e promessas frustradas. Reúno todas as forças para não esmorecer, quando mais dificuldades são acrescentadas às já esperadas, sem que a sorte mostre a sua face risonha.

Algumas pessoas são generosas e oferecem ajuda nos momentos de dificuldade ou incerteza. Contudo, independente de quanto auxílio aceite, não devo me iludir: se o problema é meu, continuo a única responsável. A cômoda solução de argumentar que fui sugestionada, segui a opinião alheia, seria assinar o meu atestado de incompetência. Em caso de sucesso, todos desejam os louros, mas o fracasso é solitário; a mesma mão que ensinou o caminho errado é a que aponta o dedo acusador.

Raras vezes as oportunidades trombam em nós; o mais comum é esvoaçarem a nossa volta, etéreas, quase imperceptíveis, ou se camuflarem em frases ouvidas ao acaso. Como as oportunidades de trabalho, emprego ou sociedades que surgem em meio a reuniões sociais, quando a comunicação flui descompromissada.

Por mim, já resolvi: se a sorte bater à minha porta, pedindo para entrar, estarei receptiva; mas, se ela me ignorar, eu a procurarei onde quer que se esconda.

E se ela não se apresentar como lindo corcel, nem vier arreada com enfeites de prata, se me atirar ao chão e obrigar a juntar os pedaços, será hora de levantar, sacudir a poeira da roupa e revisar todos os passos. Afinal, sempre é hora de recomeçar.

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