25 de set de 2004

A rebelião das palavras

Na crônica dominical, a poetisa falou das palavras que lhe invadiram o quarto e ficaram bailando, suspensas no ar, chamando-a a participar. Entendo muito bem o que ela quis dizer. Tal fenômeno, por aqui, também acontece seguido. Quando me nego _ há assuntos emergenciais na pauta do dia _ elas aproveitam a abertura da porta e se expandem pela casa, frenéticas, ignorando as prioridades. E preciso me render: não me darão descanso, enquanto não lhes der forma.

Penso que isso ocorre com as pessoas tímidas ou com outras que preferem colocar suas idéias no papel, na tela ou na argila, por receio da desatenção dos interlocutores, mais interessados no som da própria voz.

A comunicação é importante, por isso tentamos meios alternativos. Sei de uma menina que cedo compreendeu esta realidade. Pressionada pelo desprestígio pressentido entre o grupo de sua idade, resolveu montar uma estratégia para reverter a situação. Após questionar a razão do malfadado escanteio _ seria aborrecida, ignorante ou grosseira? _ estabeleceu o período de férias, passadas no campo, como o ideal para o estudo.

Na organização da estante de livros, encontrou aquele que se propunha a ensinar a difícil arte de fazer amigos. Na ingenuidade da sua juventude, acreditou haver encontrado a solução para os seus problemas. Estava ali o roteiro necessário para a almejada mudança em sua vida social! Releu o exemplar por diversas vezes. Aprendeu que devia se tornar uma boa ouvinte, mostrar interesse pelos assuntos alheios, não falar de si. Bem, essa era a parte mais fácil, já que ninguém parecia mesmo interessado em seus problemas existenciais. Aplicada, treinou com os familiares, sem que aqueles percebessem.

Na volta à cidade, em gostosa expectativa, transformando em divertido jogo a sua frustração, foi ao encontro da primeira amiga, que lhe perguntou sobre as férias. Respondeu que não fizera nada interessante; e logo fez perguntas pertinentes à outra, que se empolgou e falou, falou, sem cansar. Atenta, ela só ouvia. Interrompendo o discurso, por um instante, a amiga exclamou, maravilhada:
— O que aconteceu? Voltaste tão inteligente!

Ela deve ter sorrido, orgulhosa, sem revelar o seu segredo. Julgando haver descoberto a chave para bons relacionamentos, esmerou-se, estendendo a nova tática a diferentes situações; como conseqüência, logo descobriu o prazer de ouvir. Através dele, pôde constatar a existência de maravilhosos e inexplorados universos. Depois, nunca mais precisou se esforçar para mostrar interesse — ele brotaria espontâneo, genuíno, graças à determinação e autocrítica da menina que, aos onze anos, se propôs a fazer as mudanças necessárias.

Mas as palavras não pronunciadas se rebelaram e exigiram expressão, sob pena de causarem vexames. Acuada, preferiu a escrita como meio de comunicação. Medo da rejeição, talvez. Porque, se você abandonou a leitura desta crônica pelo meio e me deixou falando sozinha, não preciso mudar de roda, mexer no cabelo ou pegar um copo de vinho para disfarçar. Afinal, nem sei se isso de fato aconteceu.

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