2 de nov de 2004

Arroubos musicais

Em certos momentos, desejo ser capaz de soltar a voz e cantar lindas árias, encher o espaço com sons vibrantes, capazes de expressar os sentimentos mais profundos de alegria ou deslumbramento. Em outros, desejaria externar o meu espanto ou mágoa em tristes notas musicais, para que elas desfizessem os maus fluidos ao meu redor, ao se diluírem no ar.

No entanto, preciso calar essa ânsia de me comunicar através da música. Devo guardar os arroubos musicais para o momento íntimo do chuveiro, o barulho da água corrente desculpando o falsete da voz. Ou para os instantes de raiva absoluta, quando pouco importam os ouvidos alheios, naquela hora em que pensamos: Danem-se _ e fazemos o que melhor nos aprouver.Porque, entre os dons com que fui agraciada pela natureza, decididamente, não está a voz maviosa.

Também jamais serei capaz de me manifestar através de uma bela tela, expressar em traços firmes e cores cintilantes os devaneios de uma alma em constantes descobertas, embora o meu olhar se perca, encantado, tentando perscrutar as emoções vislumbradas na obra do artista. Ao longo da vida, precisei aceitar que alguns dons eu nunca terei.

Por outro lado, para compensar,ouço pessoas falarem que gostariam de se comunicar pela escrita, desejosas de possuir a fórmula para dissecar as emoções mais profundas, transformando-as em frases com que o outro se identifique e diga: Eu poderia ter escrito isso.

Escrever é mesmo um dom, embora, como qualquer outro, necessite estudo e aplicação no seu desenvolvimento. Quem gosta de escrever também precisa gostar de ler, procurar conhecer o trabalho dos outros, encontrar os mestres, apartar os modismos. Mas eu não estou aqui para dar regras ou ensinar caminhos; ainda palmilho estradas, buscando as minhas referências.Estou em processo de aprendizagem, como imagino me manterei até o minuto final.

No entanto, embora brigue,muitas vezes, com as palavras, tentando subordina-las enquanto me fogem, devo confessar que esse dom me é familiar. Tento aperfeiçoa-lo, buscando novas maneiras de dizer a mesma coisa ou uma forma mais sutil de contar amargas verdades. Enquanto luto com os vocábulos e parágrafos, atrapalhada com homônimos e sinônimos, cresce a certeza de que, com aplicação, alguém pode dominar o ato de escrever de forma bem agradável. Cantar, contudo, só é permitido aos privilegiados.

Mas não estou reclamando da Mãe Natureza, ela deve saber o que faz. Compete a cada um de nós fazer bom uso dos nossos dons, conhece-los, tentar melhora-los,aceitar o papel que nos é sugerido. Só não é válida ou aceita a preguiça, a acomodação, o deixar como está que ninguém vai notar.Mesmo os dons de aparência mais singela merecem ser burilados, aperfeiçoados, para que se possa fugir do eterno amadorismo, escapar da mesmice.

Para qualquer atividade, desde a organização de uma festa infantil até o ato de receber um grupo de amigos, do roteiro de viagem à elaboração do cardápio diário, do seminário sobre finanças à construção de casas populares, o lema deveria ser: fazer o meu melhor. Que o cantor amador acrescente novas músicas ao seu repertório, o restaurante crie um prato diferente, o presente de Natal não se repita sempre igual, a ceia vá além do indefectível peru. É preciso que haja um mínimo de criatividade e interesse em cada gesto corriqueiro.

É ponto pacífico: cantar eu jamais conseguirei e em sã consciência ninguém me exigirá esse esforço. Aliás, todos os que insistiram se arrependeram logo. Por isso, é bom nem tentar. Mas outros dons possuo e é bom saber disso.

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