27 de dez de 2004

A política e o cidadão comum

Por ingenuidade ou mesmo ignorância, é comum ouvirmos ou fazermos o comentário que não gostamos de política,por isso não nos envolvemos com tais atividades. Palpites, só descompromissados, na forma de críticas nada construtivas. Contudo, se política é “a ciência de governar”, dever dos que exercem cargos remunerados com tal fim, também é “a arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido ou pela influência da opinião pública”, essa direito de qualquer cidadão.

No ano de 2004, pela primeira vez em minha vida, compareci a uma audiência na Assembléia Legislativa.Era o Fórum do Agronegócio, para tratar da crise que se abate sobre o campo, eis que os produtores rurais acreditaram nos pedidos governamentais de maior produtividade e agora se encontram com os galpões cheios e seus produtos com preços aviltados.

Enquanto os debates se sucediam e faíscas saltavam aqui e ali, súbito senti o peso da minha omissão, como cidadã comum.

Talvez por viverem dispersos, em propriedades isoladas no meio do campo, os produtores rurais não são unidos, nem acostumados a exigir seus direitos. Sabem produzir e é esse o seu trabalho. Descobrem com atraso que isso já não basta: há decisões que fogem à sua alçada; nas altas esferas governamentais é decidido o seu destino. Vozes ainda esparsas começam a gritar o seu descontentamento e ecos começam a ser escutados. Inicia o trabalho de união em que eles, enfim, descobrirão a sua força.

Por essa razão algumas centenas se reuniram, na Assembléia Legislativa. Nos diversos depoimentos, descobriram o mesmo descontentamento. Ouviram que precisavam se mobilizar e pressionar as bases, que os políticos só agem quando exigidos. Começaram a acordar do sonho de que, ao entregar o seu voto, haviam eleito alguém para lutar por eles.

Ali sentada, súbito tive a consciência da ingenuidade de julgar que outrem se preocuparia com os interesses de uma classe, se ela não fosse a primeira a se envolver como um todo. Aprendi, ao ouvir o jogo de palavras e as diferentes opiniões, que a militância política é necessária para a sobrevivência. Ganha quem grita mais forte. Dessa forma, não basta que sejam justas e pertinentes as nossas reivindicações: precisam ser externadas com voz potente.De preferência, por centenas de vozes em uníssono.

Não somente em relação ao agronegócio ou à nossa atividade principal; utilizemos o poder da massa para lutar por tudo em que acreditamos. Se não gritarmos o nosso protesto, ele terá a força de uma lamúria.

Virar a página, recomeçar, ter outra oportunidade. Essa é a mensagem de um novo ano: há uma história a ser escrita em cada vida.Seja mudança, recomeço ou continuação, que ela seja escrita com convicção, em letras firmes. Eu quase disse que pouco importa o que ficou para trás. Na verdade, queria dizer que não se perca tempo, lamentando os erros passados. Se eu só houver aprendido o poder da militância, no ano que passou, ele já terá sido válido.

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