7 de mar de 2005

Ainda o jeitinho brasileiro

Quando tentei fazer o meu primeiro pudim de queijo, a experiência foi um fracasso. Em outro dia, fiz nova investida, ainda sem grande sucesso: ao ser retirado da forma, o pudim se esparramava pelo prato. Revisei a receita, pedi conselhos, modifiquei o tempo de forno, tirei da forma só quando frio e dessa vez o pudim ficou bonito. Contudo, para o meu gosto, estava doce demais; por isso, diminuí o açúcar, na vez seguinte, e me declarei satisfeita.

Mais tarde, resolvi me aventurar pelo reino dos pães. Dessa vez, o fiasco foi maior. Após assado, o pão ficou pequeno e esturricado. Aí lembrei minha mãe, que me contou ter transformado em alimento para as galinhas o seu primeiro requeijão, feito na estância, tão duro e elástico ficou. Papai ainda acrescentava o comentário que até as aves haviam refugado. Mas ela deve ter insistido, pois saboreei outros deliciosos requeijões, preparados por ela.

Estaríamos certas, mãe e filha, lutando para dominar um assunto do nosso interesse? Pensei que sim, fiquei até um pouco orgulhosa da minha perseverança. Sabe aquela coisa de vencer os próprios limites, o prazer de se superar, que nos ensinaram na juventude? Acreditei.

Agora descubro que fui pouco esperta, insistindo em aprender. Talvez devesse ter colocado na mesa o pudim desmoronado, culpando a receita e a qualidade dos ovos. Foi o Governo Federal o responsável por essa perturbação nas minhas convicções, mostrando que há saídas menos trabalhosas para cada dificuldade, bem como entrada pela porta dos fundos, em certas situações.

Em lugar de se preocupar em melhorar o ensino nas escolas públicas, preferiu criar as cotas para negros nas universidades. Além disso, agora alterou as regras do concurso para admissão ao Instituto Rio branco.
Em 2004, o concurso contou com 2.759 candidatos, sendo 1.531 reprovados na prova de língua inglesa e 1.090 na de Português, na primeira fase. Dos 166 que passaram para a segunda, 128 não atingiram a nota mínima em Português e 141 saíram da disputa, reprovados em Inglês.

Se fosse eu a responsável por essa situação, é provável que considerasse necessário procurar as causas, melhorar o ensino no primeiro e segundo grau. O Ministério das Relações Exteriores optou por extinguir a prova oral, antes exigida nas provas de Português, Inglês e Política Internacional, como também o caráter eliminatório do Inglês.

Quer dizer, em vez de exigir mais qualificação dos candidatos a representar o Brasil no exterior, deu um jeitinho de torná-la desnecessária, com o argumento de que a prova era elitista.

Contudo, o senador Cristóvão Buarque, ex-professor do Instituto Rio Branco, argumentou que o Inglês não será abolido, apenas deixará de ser eliminatório. Durante o curso, formador de diplomatas, será reforçado o ensino de português, Inglês, Francês e Espanhol; não será aprovado, ao final, o aluno que não for fluente nesses idiomas.

Isso significa que o objetivo continua o mesmo, o Ministério das Relações Exteriores apenas encontrou outro caminho. Se é assim, não sou a pessoa certa para criticar, após ter optado por adquirir uma panificadora elétrica. Espero que o Itamaraty tenha ainda mais sucesso com os seus diplomatas que eu com os meus pães. Que são bons e bonitos, enfim.

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