3 de mar de 2005

As velhas roupagens

Pela última vez, folheio a velha agenda, numa retrospectiva do ano que passou. Em suas paginas há uma história de compromissos assumidos, alguns planos realizados, outros adiados ou esquecidos, muitos sonhos, algumas idéias boas e outras tolas. Há também uma premência de despedida, revelada no empenho com que procuro dados importantes, com o intuito de transferi-los para a nova. Dói tanto, ainda, encontrar nomes que, se repetirmos, ninguém responderá.

Na primeira página da nova agenda, escrevo as intenções para os próximos doze meses. Isso me faz retornar à antiga, na expectativa de conferir o que consegui realizar do que me propus no passado. Bastante, mas não tudo, percebo. Assim permanecerei pelos próximos dias, voltando algumas vezes à velha amiga. Como quem deseja partir, mas não consegue fechar a porta atrás de si.

Final de ano é época perturbadora para a maioria das pessoas. Símbolo, para alguns, de alegres comemorações; para outros, motivo de profunda angústia, a solidão ampliada pela euforia reinante, o espocar dos foguetes abafado pelo travesseiro e um forte sonífero.

A cada mudança no calendário, afligimo-nos com a constatação dos projetos em andamento ou abandonados, das expectativas frustradas, da incompetência para administrar o tempo. Revivemos nossas perdas, lembrando tempos passados, antigas canções, amores perdidos. Quando alguns rostos se iluminam em largos sorrisos, em contraste, abate-nos a saudade. Por isso, muitos se recusam a participar da alegria geral, numa pretensa forma de protesto.

No entanto, todo início de ano, também a nossa esperança se renova e fazemos votos sinceros, pedindo paz, amor, saúde e prosperidade. A vida segue seu curso, concordemos ou não. Será bom tentarmos encontrar novas motivações, procurar inusitados interesses, envolvimentos diversos.

Em lugar de pensar somente em nós, nas corriqueiras preocupações e desventuras, que tal sair da casca e olhar ao redor? Qual será a nossa participação para começar a almejada mudança? E como proporcionar a nós mesmos um tempo de recolhimento, necessário para curar nossas feridas, e depois retornar ao convívio, sem estampar na fisionomia a dor maior?

Para a festa da vida, não receberemos convite; precisaremos forçar a entrada, marcar presença. Ou ficar de fora, contando como eram bonitos os bailes de ontem. De certa forma, mostrando o nosso descontentamento. Se a opção for apenas recordar ou reclamar, daqui a pouco ninguém nos ouvirá, discretamente todos terão se retirado, procurando melhor companhia.

Ainda que fuja à compreensão, tudo tem sua razão de ser. Esperemos que o próximo ano traga o que precisamos: o trabalho desejado, um bom amigo, um novo amor ou simplesmente a necessária paz. De qualquer forma, não atribuamos demasiada importância a esta noite de passagem. Depois dela, a manhã surgirá. Talvez isso signifique que nós também precisamos nos despir de velhas roupagens e, libertos, procurar a claridade. A possibilidade de recomeçar está implícita em cada despertar.

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