3 de abr de 2005

Coadjuvantes

Escrevo sobre a maturidade, utilizando os recursos do computador. Não que eu os domine como desejaria, mas cada vez avanço um pouco, tateando, perdendo por distração algum texto importante e pedindo ajuda para, ao final, encontrá-lo numa pasta inesperada. Dessa forma, desvendo caminhos, como se faz na vida: através dos erros e acertos, encontro o método mais adequado a cada situação. No desenvolvimento deste processo de aprendizagem, até posso aceitar a experiência dos outros, mas a prática precisa ser minha, para realmente assimilar os conhecimentos, através da teimosia e da recusa em me declarar vencida.

Algumas vezes, de tanto insistir, chego a resultados inesperados, cujos processos se perdem, na incapacidade de conseguir repeti-los. Aí começo tudo, obstinada, até entender em que ponto falhei.

São tão velhas essas lições e isso é tão óbvio, que eu me pergunto a razão de executarmos os mesmos passos, esses já tão repetidos. Por que, quando são outros os aprendizes, desejamos lhes impor a nossa sapiência, privando-os das suas próprias e custosas descobertas?

Quando jovens, lutamos para romper os amorosos grilhões que nos aprisionavam, para que pudéssemos enfim reconhecer: este sou eu. Adultos, ditamos regras, no empenho de evitar tropeços aos outros, ou lhes cobrimos de flores a estrada, na ilusão de facilitar a sua caminhada. E esquecemos de que foram os momentos de sufoco os que nos deram a dimensão da nossa própria força.

Mesmo as melhores intenções, alicerçadas no nosso desejo de lhes pouparmos das desilusões e desventuras por nós já enfrentadas, não justificam tal atitude. Porque, como aconteceu conosco, eles precisam queimar os dedos no palito de fósforo, sair mal na prova por terem estudado só no último instante, descobrir tarde demais o quanto era fácil a disciplina.

À medida que os filhos crescem, pai e mãe aumentam a proteção, na esperança de mantê-los longe de todos os vícios e maldades. Quando descobrem falhas na malha protetora, ou detectam a presença do inimigo dentro do seu reduto _ o filho aparece bêbedo ou drogado, bate com o carro, rouba e assalta, protegido pelo seu status social _ culpam a si mesmos ou um ao outro. “Devias ter percebido”, algum dirá. Como se o amor fosse uma armadura suficiente.

A vida segue seu roteiro e ela não perdoa, nem admite fraquezas. Aprendemos essa verdade, caindo e levantando inúmeras vezes, desde os joelhos esfolados nos pátios da infância, passando pelas desilusões amorosas, até à problemática financeira. São muitas as pelagens que trocamos em busca da definitiva, que não sei se existe ou se, algum dia, encontrarei. Mesmo assim, cada etapa vencida é responsável por hoje estarmos aqui, em pé, e não prostrados num canto qualquer, a reclamar das injustiças conosco cometidas.

Não conseguiremos proteger os nossos amados das dores do crescimento; o mundo se encarregará de lhes ensinar, sem nenhuma benevolência, as lições que lhes omitimos ou que eles não quiseram escutar. Em algum momento, a situação foge ao controle de todos os pais e é bom que assim seja. Nesse dia, os filhos começam a crescer.Como respondemos pelas nossas atitudes, aprenderão a responder pelas suas.

Continuaremos a fazer as nossas perguntas pessoais, a procurar as respostas, tentando intervir o menos possível nas vidas alheias. Após tantas encenações, aprendemos a abdicar do papel principal e enfim aceitamos o de coadjuvantes.

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