26 de abr de 2005

Maria-vai-com-as-outras

Desejoso de compreender a importância da crítica no comportamento social, determinado profissional resolveu fazer uma experiência, utilizando como cobaias dois executivos de uma empresa.

A primeira vítima escolhida foi uma linda jovem. Após perguntar a várias pessoas o que achavam do seu vestido, tendo recebido elogios ao mesmo, ele se aproximou da moça e perguntou por que insistia em usar aquela roupa, que ninguém no escritório apreciava. Em diferente ocasião, fez o mesmo com um rapaz, referindo-se ao terno de grife que o outro usava, novamente afirmando ser o comentário geral que era muito deselegante.

Passados alguns meses, em que ele notou que nenhum dos dois tornara a usar a roupa criticada, perguntou à moça pelo vestido tão atraente, porque deixara de usá-lo. Ela respondeu que até se desfizera dele, pois ninguém o apreciava. “Inclusive você”, completou, admirada. Repetindo a operação com o rapaz, ouviu a mesma resposta. O profissional teve remorsos, segundo afirmou, por tê-los levado a se desfazerem de roupas bonitas e caras, mas considerou satisfatório e interessante o resultado da experiência, comprovador da importância de uma única crítica negativa, capaz de ocasionar profundas alterações no comportamento.

Ao ler sobre essa experiência, meu primeiro sentimento foi de indignação. Logo após, detive-me no valor da pesquisa. A verdade é que a maioria de nós talvez reagisse como os dois “ratinhos de laboratório” dessa história. O pior é que talvez atribuíssemos ao crítico toda a culpa pelo desenrolar dos acontecimentos, ignorando a nossa condição de “maria-vai-com-as outras”. Como se fosse possível agradar a todos, durante todo o tempo.

Ao encontrar uma opinião contrária, são comuns as manifestações de ressentimento. Alguém diz que o corte de cabelo não agradou, o trabalho ficou mal feito, não devíamos ter falado naquela hora. E agora, fazer o quê? Mudar o penteado, a atitude, o jeito de ser? Irritar-se com o outro? Ou simplesmente aceitar que cada um pensa com a sua cabeça e todos podem manifestar a sua opinião, sem por isso despertar mágoas?
Por um lado, seria bom se pudéssemos confiar de forma integral na opinião de algumas pessoas que nos parecem idôneas. Mas elas podem estar enganadas em seu juízo, mesmo bem-intencionadas, ou quem sabe num dia de mau humor. Ou, ainda, com igual efeito devastador, podem ser condescendentes em excesso, enchendo-nos de elogios imerecidos.

Outros críticos podem ser motivados por razões dúbias, sentimentos contraditórios: amor e ódio, admiração e inveja. Nesses casos, volta a ser essencial que não nos deixemos sugestionar pelo primeiro comentário negativo. Cada um precisa se olhar no espelho e ser o seu próprio juiz. Se nos desfizemos da roupa preferida, sugestionados por opiniões contrárias, azar o nosso.

Mas cuidado: podem estar em jogo valores mais importantes que a escolha de um vestido ou de um terno masculino.

A gente participa e confraterniza, acredita na proteção de pertencer a um grupo ou instituição. Até que, em determinado momento da vida, descobre que a decisão final é pessoal e intransferível, e seremos os únicos responsáveis pelo erro ou acerto da mesma. Nessa hora, a gente afunda ou cresce.

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