24 de mai de 2005

A crise anunciada

No dia 20/5, foi realizada audiência pública para discutir os problemas da agropecuária, na Câmara Municipal de Pelotas. Por algum lapso, os produtores rurais, primeiro elo da cadeia produtiva, não receberam convite para a mesma. Não foram participadas as entidades de classe, as quais teriam repassado o convite aos seus associados. Mas, da mesma forma, por qualquer acaso, alguém se inteirou da audiência, na véspera. Logo uma comunicação espontânea e informal foi estabelecida, através de telefonemas. Os jornais locais, também sabedores da audiência em cima da hora, noticiaram no próprio dia.

Foi louvável a preocupação da Câmara Municipal de Pelotas, junto com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Rural, em propiciar a discussão dos problemas enfrentados pela classe rural, através da audiência pública. Realizada para discutir a exportação estadual de bovinos em pé para o Líbano, operação em andamento, na Associação Rural de Pelotas, a audiência terminou trazendo à tona a grave crise enfrentada pelo setor agropecuário.

Por essa razão foi importante e decisiva a presença de grande número de pecuaristas na audiência. Com coragem e determinação, eles se posicionaram, mostrando conhecimento real da crise e a certeza de não serem os culpados pela mesma.

A mobilização, embora realizada às pressas, demonstrou a união e conscientização da classe, os produtores rurais cônscios dos seus direitos e da falta de políticas governamentais que os assegurem.
Muito dessa conscientização se deve ao trabalho desenvolvido pelo Grupo de Trabalho Autônomo de Produtores Rurais-Pelotas, grupo esse que já congrega milhares de produtores de diversos municípios, com a parceria da Associação Rural de Pelotas. Gente consciente do seu valor e da sua competência, ainda que desprestigiado esteja o seu negócio. Gente que não vai, humilde, de chapéu na mão, pedir. Gente que cobra, porque sabe que a produção rural é a força motora desse Brasil. Gente que, na hora certa, coloca na cara um nariz de palhaço, para mostrar a quem de direito que a classe rural cansou de ser motivo de chacota.

Pois, esse grupo, após estudo minucioso da situação, pressentindo a grave crise que se avizinhava, enquanto a mídia ainda festejava o sucesso do agro-negócio na balança comercial, lançou o Manifesto de Pelotas. O grito de alerta foi dado em outubro de 2004. Alcançou outros pagos, chegou à Assembléia Legislativa do RS e ao Senado Federal, conquistou adeptos, inclusive no meio político.

A crise anunciada foi maior que a prevista, pela seca que assolou a região, a maior em 30 anos. Mas a dificuldade une e nela surgem e se fortificam as lideranças. Foi isso que se viu na audiência pública do dia 20/5. Os produtores rurais deram o seu recado e conseguiram reverter a situação, mostrando que, em situações emergenciais, devem ser utilizadas soluções emergenciais.

A exportação para o Líbano pode não ser a ideal, mas é uma alternativa concreta para a pecuária da Metade Sul do Rio Grande. Quem dera fosse possível a exportação de gado em pé para o Uruguai, para que a concorrência saudável com os frigoríficos uruguaios obrigasse os abatedouros gaúchos a pagar o preço justo. No momento, não cobre sequer o custo da produção.

A classe rural está segura de que faz a sua parte. Agora ela cobra as decisões políticas capazes de viabilizarem a continuação do seu trabalho. Cansou de ser a vilã dessa história mal contada.

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