19 de jul de 2005

A novela do momento

Bem que eu gostaria de poder escrever sobre assuntos leves, animar o espírito das pessoas com notícias alvissareiras. Quer coisa mais gostosa que chegar numa roda, cheio de boas novas, despertando sorrisos e olhares de alegre expectativa? “Sabem da última?”, diria, antes de contar as promissoras novidades, transmitindo esperança e perspectivas de planos realizáveis.

Mas a novela da política nacional invade as nossas vidas, mais emocionante que qualquer enredo dos melhores diretores televisivos. A realidade roubou a cena, poder-se-ia dizer.Por isso, se torna difícil falar em outro assunto.

Assistindo ao desenrolar dos acontecimentos, o sentimento nacional é de vergonha, como se todos nós, brasileiros, tivéssemos culpa nessa sujeira toda. Ouvimos os depoimentos dos deputados e senadores, desejando com todas as forças acreditar em alguém. Um após outro, caem os políticos que ainda ontem eram as vozes confiáveis e acusadoras; formadores de opinião, pretendiam “fazer a nossa cabeça” em diferentes temas; diziam-se cheios de ideais e hoje descobrimos que trocavam de opinião com facilidade, ao ouvirem o tilintar das moedas prometidas.

Sobrará quem, quando a troca de acusações chegar ao final? Na mesma linha de pensamento: qual o valor dos projetos votados por Suas Excelências? A quais interesses escusos obedeciam, ao decidirem, por exemplo, a favor do desarmamento da mesma população ludibriada por eles? São esses os questionamentos que nos fazemos.

Enquanto isso, a internet faz o seu trabalho de conscientização política, difundindo os escândalos, ridicularizando os que levaram nosso país ao caos, criando listas de adesão onde os internautas manifestam o seu protesto, na condição de substitutos dos caras-pintadas” do século passado.

Esse é o lado bom dessa história triste: amadurecemos. Perdemos a inocência e a crença em nossos falsos líderes. A sua pequenez nos fez assumir a nossa parcela de culpa. Como conseqüência, pessoas que nunca atuaram em associações comunitárias e sindicatos de categorias compreendem a importância da participação. Aos poucos, grupos se formam e descobrem o bom uso a ser feito dessa união.

Assim, de certa forma, há algo de positivo no processo de desesperança e vergonha que sofre a população brasileira. Esse sabor amargo que permanece na boca _ quando a tela da TV se apaga e as expressões de total “cara-de-pau” permanecem na nossa retina, alertando-nos para o papel de palhaço desempenhado pelo povo brasileiro _ deve ser revertido em indignação e comprometimento.

Se não tivermos a costumeira memória curta, se no futuro soubermos negar o voto aos vilões dessa novela, obrigando outros a pensar várias vezes, antes de nos enganar novamente, se deixarmos de nos omitir, quando formos chamados a opinar e trabalhar, talvez possamos provar a nós mesmos que não somos iguais e não compactuamos. Se isso acontecer, a vergonha de hoje poderá se transformar no desejado orgulho por sermos brasileiros.

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