23 de ago de 2005

De pessoas e de lareiras

No entardecer de inverno, quando volto para casa – caminhando pela calçada larga,desviando-me dos outros transeuntes, açoitada pelo vento cortante da minha terra - vejo a fumaça saindo pela chaminé da lareira e sei que o mundo está em ordem.
Há pessoas que são como lareiras acesas, onde é bom chegar, quando o frio nos perturba a alma. O sorriso espontâneo, o brilho no olhar e o abraço apertado fazem parte desse jogo de reconhecimento e entrega. Que pode estender-se por assuntos sem nenhuma importância, só pelo prazer de nos aquecermos com a sua companhia. Ou ser prolongado pelo silêncio compreensivo,pois algumas vezes ele aconchega mais que as palavras.
Pode acontecer, no primeiro contato, que aos desavisados cause estranheza tanto calor humano. Lareiras também surpreendem, lançam fagulhas inesperadas, queimam o tapete, quando esquecemos a obrigatória proteção da grade de ferro. É comum, quando o fogo é forte e foi mal-feito, que uma acha de lenha desmorone da sua armação e role para fora, causando estragos.
Mesmo quando tudo está na ordem correta, o desprevenido pode levar um susto, ao ver a fumaça constante saindo pela chaminé; lareiras não são tão comuns como deveriam ser, no extremo sul do Brasil.
Lareiras têm efeito calmante, quando ficamos parados, quase sem pensar, acompanhando o movimento das labaredas. Como as pessoas que nos aceitam como somos, cheios de imperfeições e arestas, tal qual as lenhas que algumas vezes compramos.
Lareiras atraem,chamam para junto de si,devolvem o calor ao corpo enrijecido pelo frio das ruas.Restabelecido o bem-estar, dificultam a saída: lá fora cada um sabe o que o espera.
Algumas pessoas _ poucas _ têm esse poder de aconchegar e restaurar o equilíbrio. Embora sejam raras, são de fácil reconhecimento: basta encontra-las, para o mundo ficar em ordem.

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