12 de ago de 2005

A esperança perdida

Entro no táxi, em São Paulo, e o motorista, um senhor de meia-idade, cabelos brancos, pergunta se me importo que o rádio fique ligado.
- Ouve a novela do momento? – pergunto, concordando. Gosto da conversa de muitos motoristas paulistas, ligados em todas as notícias, nos comentários tanto de críticos esportivos como políticos. Esclarecidos, têm opiniões muito lúcidas sobre a crise nacional.
- Estava ouvindo uma deputada falar sobre as mentiras deslavadas que os depoentes falam nas CPIs, sem que sofram nada por isso. Pensei na descrença que hoje nos dão os três poderes. Antes, eu pensava: “Creio na santíssima Trindade: Deus no céu, o juiz na terra e eu aqui. Agora, com tudo que vi e os juízes deixaram de fazer, ficamos eu e Deus, não há mais a Santíssima”.- Tive de rir, apesar da triste situação.
- Também fico imaginando – ele continuou – em quem acharei para votar, quando chegar a hora. Não vejo ninguém, perdi a esperança.
Fizemos ambos um minuto de silêncio pela esperança perdida, pela crença no partido ético, pela possibilidade desbaratada de o Brasil enfim entrar no rumo certo.
- Nem sei porque gosto de ouvir esses palhaços, é só pra sofrer – ele completou.
- Os palhaços somos nós – falei. – E precisamos ouvir, para saber o quanto fomos idiotas e conhecer os que decidem por nós, com o direito que lhes demos através do voto. Para isso serve essa sujeira toda: fazer cair as máscaras.
Concordamos novamente, enquanto o táxi avançava pela Avenida 9 de Julho, nomeada em homenagem à data em que os paulistas levantaram armas contra os desmandos do governo federal, na ocasião representado por Getúlio Vargas. “Simbólico roteiro”, pensei. As situações se repetem, o povo sempre como marionete nas mãos a quem concedeu o poder.
Mas essa sujeira que vem à tona, após levantada a ponta do tapete, quando começamos a descobrir parte do lixo escondido – pois todo jamais conheceremos- tem o grande mérito de tornar a nós, brasileiros, muito mais politizados. Nunca tantas televisões estiveram ligadas nos mesmos canais, nunca a política foi assunto em tantas rodas.
Além disso, o espírito crítico nacional foi exacerbado. Agora nos sentimos no direito de questionar todas as decisões e projetos elaborados pelas Excelências. Enquanto alguns colocavam no bolso o Mensalão, outros votavam projetos importantes com a mesma incompetência com que fazem perguntas sem qualquer procedimento aos depoentes, mostrando o seu nível intelectual e cultural.
- Por esses foi votado o projeto contra o Desarmamento – falei, despertando novos questionamentos e a certeza de que o povo ordeiro precisará se posicionar com firmeza contra a idéia da proibição de armas e munições em território nacional, votando NÃO no referendo de outubro. Inclusive, para dar força aos raros deputados e alguns senadores que mostram bom senso e posicionamento firme, em suas considerações. Esses, aliás, devem se sentir isolados e impotentes, ao olhar para os lados. - Serve a quais interesses a população civil desarmada? – foi a pergunta que ficou no ar, quando desci do táxi.

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