8 de ago de 2005

O novo modelo de paternidade

À saída da escolinha, as meninas, todas na faixa dos sete anos, filhas de pais divorciados, comentavam:
- O pai da Maria é que é legal, nunca a faz esperar, na porta do colégio - um minuto de silenciosa concordância mostrou a excelente opinião sobre o pai da coleguinha. O assunto em pauta era o fato de outro pai, o da Bia, na véspera, haver esquecido que lhe competia buscar a filha no colégio, precisando a professora contata-lo no celular, quando não apareceu, após certo tempo de espera. As crianças desenvolveram os seus comentários sobre o comportamento dos pais de cada uma, com extrema lucidez e perspicácia. Ouvindo-as, pensei que seus pais deveriam estar ali a ouvi-las, no lugar dessa estranha.
Entre os filhos de pais divorciados, cria-se uma curiosa corrente de apoio e solidariedade, na troca de experiências e vicissitudes. Porque eles logo entendem que foram jogadas a um mundo novo e hostil e aprendem a necessidade de se defenderem e ampararem. Mas não é o fato de um pai ser divorciado que o faz mais presente ou alheio.
Há pais amorosos, atuantes, bondosos, condescendentes e generosos, como há pais desligados, críticos e cruéis. Há pais de todos os tipos. Afinal, pais são seres humanos; o fato de terem procriado não muda a sua natureza.
Contudo, a escolha da paternidade obriga a um compromisso com os filhos para o resto da vida. E é isso que todos os jovens deveriam entender, antes de se entregarem à aventura de procriar. Nem todas as pessoas, tanto homens como mulheres, têm as condições e as características necessárias para assumir esse papel, sem que haja nada de errado com elas, nem seja desabonadora essa constatação.
Por longo período da vida, os pais precisarão colocar os filhos em primeiro lugar, abdicar de seus planos e interesses em prol dos deles. Isso exigirá enorme maturidade e capacidade de doação, qualidades que nem todos conseguem desenvolver. Mesmo pais que moram em casas separadas, ou que deixaram de ser marido e mulher, precisarão se manter parceiros na educação dos filhos. Por eles, precisarão se obrigar a conversar e tentar se entender. Os pais perdem o direito a crises temperamentais, quando a felicidade e segurança dos filhos está em jogo.
Na transformação que sofre a família, dentro de uma sociedade também em transformação, é preciso que os papéis de pai e mãe sejam revisados. Também é necessário que cada casal se pergunte se deseja assumir o compromisso da paternidade. As crianças e jovens da atualidade, perplexas diante de um mundo assustador, cada vez necessitam mais da segurança proporcionada por adultos conscientes e maduros. Homem e mulher, transformados em pai e mãe, assumem a responsabilidade de garantir essa segurança, independente de quão inseguros eles mesmos se sintam. Ao assumirem tais papéis, aceitaram o compromisso de mostrar o caminho e preparar para o futuro. Não há como voltar atrás.

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