30 de ago de 2005

Pode haver dignidade na doença?

As pessoas ficam mais vulneráveis e inseguras, quando pegas de surpresa por qualquer enfermidade. Nessas condições, no mínimo, tanto os enfermos como os seus familiares merecem um atendimento qualificado e gentil.
Súbito me vejo freqüentando um hospital na cidade de São Paulo. Desde o primeiro instante, chamou a nossa atenção a tranqüilidade proporcionada pelo ambiente extremamente asséptico, florido e agradável.O atendimento rápido no “pronto atendimento”(aliás, o que nome promete), com imediato acesso ao médico de plantão, o envolvimento do enfermeiro e do auxiliar, toda a equipe entrosada e ao par de cada detalhe do procedimento e de todas as reações do paciente – essa série de circunstâncias, ao tempo que me alegrou, por ser possível, entristeceu-me, por não ser a usual e obrigatória.
Enquanto cada enfermeiro esterilizava as mãos, ao entrar e sair do quarto, para evitar a temida infecção hospitalar, ocorriam-me visões horripilantes de sanitários onde as pacientes se sucediam, sem a menor higiene. Num canto, uma assustadora cesta, repleta de panos ensangüentados.
Sei que não parece próprio comparar hospitais particulares, situados em capitais de alto poder aquisitivo, com outros de cidade do interior, esses em extrema carência, dependendo de verbas governamentais que atrasam ou não chegam. Mesmo assim, continuo acreditando que é preciso não se conformar, recusar-se a aceitar condições negativas de higiene, demora no atendimento, administração de remédios errados, extensas filas para receber uma ficha, meses na espera por uma cirurgia que deveria ser imediata - essa série de transtornos a que grande número de seres humanos se submetem, diariamente, por falta de opções e de condições financeiras.
Nesse agradável quarto de hospital, onde o melhor é a segurança do bom atendimento, lembro os milhares de doentes nos corredores dos diversos hospitais: os privilegiados em macas sem cobertores ou travesseiros (se algum familiar não trouxe de casa), os outros recostados nas cadeiras duras ou atirados no chão frio, como tantas vezes presenciei. Não podem se conformar com a precária situação da saúde no Brasil, todos os que, como eu, acompanham funcionários e seus familiares em momentos de dificuldade, quando tudo se torna pior, pelo descaso com que as pessoas são tratadas, mesmo com seus direitos assegurados na carteira de trabalho.
Nos hospitais particulares de “primeiro mundo”, a comunidade contribui com extensas verbas para a compra de modernos equipamentos. A comunidade se sente gratificada, quando, além de bem atendida, ela sabe que milhares de pessoas carentes estão usufruindo de semelhante atendimento, com o único diferencial de estarem em enfermarias ou quartos comunitários. É preciso que haja dignidade na doença, que as pessoas não se sintam desmoralizadas, degradadas, nesse momento em que se encontram fragilizadas pela dor ou pelo receio do desconhecido. Os responsáveis pelas instituições de saúde devem se sentir cobrados e observados, conscientes do seu importante papel.Porque nós, usuários dos serviços, não podemos mais aceitar a situação financeira como desculpa para as péssimas condições de higiene ou para o atendimento desqualificado.

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