12 de set de 2005

Um vôo normal

O vôo era marcado para as 13h10’ e, como estava no horário, pouco antes os passageiros foram convidados a embarcar. Prestes a entregar o cartão de embarque, fui ultrapassada pela jovem mãe, transportando com determinação o seu rebento dentro do carrinho. Logo após, um senhor de idade, com passos que, embora trôpegos, conseguiam ser enérgicos, também avançou pela minha direita, cortando-me a frente e entregando o seu cartão.
Não reparei se a aeromoça esqueceu de chamar primeiro os acompanhados de crianças e os velhos, ou se eles chegaram em cima da hora e se afobaram. Ambos usaram os seus direitos, com certeza, e nada contra. Mas bem que poderiam ter pedido licença, feito um sorriso, justificando-se, em lugar de atropelarem aos outros passageiros.
Aguardei a minha vez. Afinal, os lugares estavam marcados.
Os nossos são muito bons, com bastante espaço. Por essa razão também a jovem mãe preferiu a primeira fila, no outro lado do corredor, e já a ouço discutindo com a passageira sentada no terceiro banco: julga que houve engano, a companhia aérea prometeu deixa-lo vago, para que pudesse acomodar o bebê.
Contudo, a aeromoça informa que está tudo correto, no bilhete da outra passageira consta aquele lugar e o avião está cheio, não há o que fazer. Antes que a mãe se estenda nas reclamações, o marido chega, diz que está ótimo, pega o bebê no colo e nos preparamos para começar a curtir a viagem.
Mas aí chega a última passageira, que vai sentar ao meu lado, na janela. Ela traz duas bolsas na mão e uma o comissário de bordo pede licença para colocar mais no centro do avião, pois os espaços superiores próximos estão cheios. Contrariada, ela concorda. Logo lembra de perguntar pela refeição especial que solicitou na véspera e a aeromoça vai se informar sobre a dita. Retorna em seguida, com a informação de que “sinto muito, a refeição pedida não foi embarcada”. A passageira quase tem um colapso, agita-se, diz que a companhia aérea não é mais a mesma.
Na passagem, constava “lanche a bordo” e, sem falsas expectativas, preferimos almoçar antes de embarcar. As companhias aéreas, por motivo de economia, estão reduzindo as refeições. Mas, em trecho tão curto – cerca de hora e meia de viagem – se alguém necessita uma refeição especial, não seria mais fácil fazê-la antes?
A mãe do bebê sacode o chocalho, produzindo um barulhinho irritante. Convicta, como acontece a algumas mães, que o mundo deve se render à sua maternidade.
A descida em São Paulo é calma. O comissário de bordo se apressa em trazer a bolsa da passageira ao meu lado, quando os motores se apagam. Ouço-a perguntar: “Será que o armário não estava molhado?”, quando ele se dirige para lá. “Não costuma acontecer”, responde o rapaz, com educação.
É um vôo de pequena distância. Logo cada um pega o seu rumo, alguns atropelando a todos, julgando-se donos do pedaço; outros esperando que homenagens lhes sejam rendidas, por quaisquer razões; todos testando a paciência alheia. O bicho-homem retorna às origens, em situações de stress. Nas modernas cavernas ou transportados pelos ares, temos um longo caminho na aprendizagem da convivência.

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