3 de out de 2005

Por conta e risco

O pensamento pediu licença às tarefas sérias que eu lhe havia solicitado e, por sua conta e risco, tirou uma folga. Rodopiou comigo, abriu um buraco e me lançou no túnel do tempo. Súbito, ainda atordoada pela inesperada viagem, eu me vejo criança, debruçada sobre a mesa da copa da casa da minha infância.
Observo minha mãe. Em pé, ela bate manualmente o merengue para confeitar o Bolo Alice. No avental, amarrado à cintura, noto as três margaridas com os miolos amarelos, os caules entrelaçados saindo do bolso central. Meus irmãos circulam por ali; cada um que passa pede para ficar com a raspa do merengue na tigela de inox. Distraída, mamãe concede a regalia a todos. Tranqüilizados pela promessa obtida, eles vão tratar dos seus assuntos, certos de terem obtido a prioridade. Aprontado o merengue e confeitado o bolo, como se um reloginho interno as avisasse de que era chegada a hora, aparecem as crianças, exigindo o quinhão prometido. Começa a balbúrdia, reclamações e lamentações em alto e bom som. Desconsertada, mamãe entrega o batedor de arame para o primeiro lamber; para outro, uma rápida passada da colher no fundo da tigela e a própria para o terceiro. Mas ainda sobram quatro descontentes a reclamar, brigando entre si e com ela, que se considera injustiçada. Com promessas de regalias futuras e outras cartas tiradas da manga, ela resolve o impasse, com a desenvoltura de quem houvesse freqüentado algum curso de gestão política.
Observando a cena, agora na cômoda condição de espectadora, livre do receio de perder eu também a sobra do merengue, acho graça na brincadeira e dou asas à imaginação, tentando resgatar outras lembranças. O esforço intenso faz com que eu rodopie novamente, reentrando na espiral.
É o momento de combinar os preparativos para o aniversário de papai. Para surpresa geral, o aniversariante, desejando evitar maiores gastos, argumenta não querer comemoração. Pressionado, acuado, completa a justificativa: “Não gosto de festa, mesmo. Aniversário, isso só tinha graça nos tempos do Uruguai”! Para que foi dizer isso? Ele não imaginava a crise que iria desencadear. Agora mamãe, desfeita em lágrimas, retruca, revoltada:
_ E ainda tens coragem, após tantos anos em que te festejei o aniversário, com tanto trabalho, de dizer uma barbaridade dessas? E logo nos tempos do Uruguai! Decerto na casa daquela namorada que nem banho tomava, completa, cruel, ela que sempre fora tão generosa. Pois, num momento de confidências, ele teve a infeliz idéia de lhe contar que, na casa da ex- namorada, numa antiga fazenda, no interior uruguaio, em certo dia, ao entrar no quarto de banho, observara uma galinha chocando os seus ovos dentro da banheira. Como era a única forma de tomar banho, naquela casa, e a galinha leva vinte e um dias para chocar, era a óbvia conclusão. E o fato se tornara uma piada na família.
Agora, atrapalhado, ele tenta se explicar, com justificativas canhestras, no fundo lisonjeado com a manifestação de ciúmes. Deliciados com o inusitado da situação, nós acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos, contribuindo com observações nada conciliadoras, na maldade inconseqüente com que mesmo os filhos amorosos tratam os velhos pais.
A cena seguinte comprova que, mais uma vez, papai foi vencido pelas lágrimas femininas. Com a ajuda do sobrinho, ele prepara o fogo de chão para o churrasco, no primeiro aniversário que passará na cidade. Outros tantos foram festejados na estância Santa Cecília, mas esse tempo passou. Conformado com a nova situação, ele ri da agitação das mulheres da família, trazendo travessas com saladas diversas, comentando as sobremesas requintadas trazidas pelas noras, enquanto os netos correm de um lado para o outro, enredam-se nas saias das mães. No carrinho, o caçula adormeceu, abraçado com o boneco Falcon.
Depois, sob a parreira carregada de uvas maduras, a família se reúne, filhos e netos distribuídos à volta da comprida mesa de madeira. A conversa corre solta, com a presença implícita da namorada, aquela dos tempos do Uruguai, nos comentários irônicos de mamãe e no sorriso orgulhoso de papai. Reconfortado, o pensamento resolve me dar uma trégua. Lentamente, ele me faz rodopiar uma vez mais, antes de me depositar com cuidado em frente ao computador. Através da janela, além da grama recém cortada, da árvore frondosa, do banco de madeira, vislumbro crianças brincando de pega-ladrão em pátios de velhas casas, jovens galopando por campos verdes, em alegres perseguições. Ouço ainda um resto de conversa e risos, sinto o leve perfume de um outro jardim. Na boca, tenho gosto de uvas pretas.

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