3 de dez de 2005

Final aberto

O final de certos filmes tinha o poder de me irritar. Estava eu ali muito interessada no desenrolar da história, curiosa sobre o desfecho, se a mocinha ficaria ou não com o mocinho, se ele seria capaz de perdoa-la, se os maus todos seriam descobertos e castigados, quando era surpreendida com o THE END, logo após os dois se olharem profundamente, mudos, e saírem a caminhar pela rua deserta, na noite escura, em direção aos automóveis estacionados lá adiante. Pega de surpresa, interrompido de forma abrupta o clímax da ação, tentava achar eu mesma o final adequado, aborrecida com o diretor do filme. Assim, ficava ainda por minutos pensando se cada um ia embarcar no seu carro e seguiriam os dois para destinos diferentes, ou se correriam um para os braços do outro, e por aí seguiam os meus questionamentos, na busca do fim ideal.
Na Oficina Literária, fui apresentada formalmente ao “Final aberto”, técnica utilizada justamente com o intuito de colocar o assistente ou o leitor como partícipe da ação: de acordo com o que presenciou ou leu, ele pode criar o desfecho que julgar apropriado. Empolgados com o poder que lhes era outorgado, durante as aulas na Oficina, alguns alunos extrapolavam, criando finais escancarados, ao ponto de tornar impossível entender o conteúdo do conto ou crônica.Mas isso foi só no início, depois cada um encontrou o seu estilo.
Agora, aprecio os finais abertos. Entendo que são eles que me fazem pensar e continuar saboreando o filme, depois que a luz acende. Também são eles que me deixam pensativa, quando fecho o livro, após ler a última página. Da mesma forma que a possibilidade de criar o nosso próprio final é o que nos estimula a levantar da cama, cada manhã.Nada precisa ser definitivo e irrevogável, pode-se voltar atrás, em inúmeros casos. Mesmo que a mocinha tenha embarcado no automóvel errado, ela pode descer na esquina seguinte. Esta possibilidade é que torna a vida gostosa: a procura de novos caminhos, a abertura de um leque de alternativas que nós mesmos precisamos inventar. Cada momento tem o final aberto, se não nos fecharmos dentro dele, decidindo que assim será para sempre. Mudamos nós e as nossas circunstâncias. Por isso, precisamos revisar seguidamente o nosso roteiro, para altera-lo sempre que necessário. Sem que isso signifique que o rumo anterior estava errado. Apenas, quando as circunstâncias mudam, temos que nos adequar e também mudar, sob pena de ficarmos para trás, se não acertarmos o passo. Cada um sabe o que lhe desagrada em sua própria vida, e se não sabe é porque não se permitiu descobriu. Um pouco de curiosidade sobre nós mesmos é essencial, um instante de encontro com as nossas necessidades e anseios, o enfrentamento com o desconforto sobre certas situações. Pode ser salutar olhar para a frente e vislumbrar o final previsto. Se ele nos causar arrepios, que tal mexer no roteiro, atribuir menos importância a certos personagens? Quem sabe abrir novo caminho, largar da mesmice? Que tal deixar em aberto o final do nosso filme?

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