16 de mar de 2006

Ninguém me entrevistou

Que pena, ninguém me entrevistou. Entrevistaram o Raul Cortez e ele falou sobre a sua traumática experiência com o câncer, o doloroso tratamento e a posterior avaliação da vida.
Está certo, Raul Cortez merece ser entrevistado mil vezes, pelo excelente ator que é e pelos maravilhosos momentos de riso ou emoção que nos tem proporcionado. Mas, ao falar da sua vivência amarga, da depressão que o acometeu, ele de certa forma contribuiu para aumentar o pânico em relação à doença. E doença, como qualquer mal que nos atinja, depende muito da forma como é encarada.
A descoberta de que se tem um câncer pode ser terrível. Ou não. Afinal, viver implica em riscos. Alguma coisa irá nos acontecer, mais cedo ou mais tarde. Quando as tragédias ocorrem na infância ou na juventude, não há como explicar, nem entender.
Contudo, presume-se que a maturidade nos encontre preparados para eventuais acidentes de percurso. A partir de certo ponto, a gente começa a fazer contas, lembra que a mãe morreu com tal idade, o avô foi até os noventa, mas tem aquele tio que morreu aos trinta e dois. Lentamente, começamos a assimilar a possibilidade do fim.
De repente, pode surgir um problema sério, mas não é motivo para aposentarmos as chuteiras e sentar para esperar o fim. Calma, pessoal, ainda há muito jogo pela frente. Isso foi apenas a sineta avisando que, em hora indeterminada, ele vai acabar, mas isso a gente já sabia desde o início.
A descoberta de um tumor maligno pode ocasionar a sensação de que a pessoa deve se entregar. Mas, além dos grandes avanços alcançados pela medicina, o organismo de cada um tem a sua reação peculiar. Isso nos permite acreditar que conosco poderá ser menos traumático, expectativa favorável que tende a se tornar realidade, quando não contribuímos para aumentar as dificuldades.
Além do mais, na medida do possível, o paciente também colabora, quando se mantém participativo, interessado no mundo à volta, em vez de apenas preocupado com as suas mazelas e perdas. Ajudará muito, se conseguirmos encarar com naturalidade cada etapa do processo de recuperação, consciente da existência de situações piores. Inclusive não ter condições financeiras para realizar o tratamento, ou não possuir familiares e amigos capazes de nos puxar para cima e nos obrigarem a caminhar, rir e festejar cada novo dia.Sei que as vivências são diversas e outros terão histórias amargas para contar, capazes de perturbar aos desavisados. Mas fantasmas perdem seu poder assustador, quando criamos coragem e puxamos o lençol que os cobre. Por isso, fosse eu a entrevistada, diria que algumas vezes as coisas podem ser mais simples do que imaginávamos e situações de crise propiciam a constatação do quanto somos importantes para determinadas pessoas. No mais, quando não sobram alternativas, é sábio aceitar com naturalidade a parte que nos cabe e seguir em frente, usufruindo cada momento precioso que a vida nos oferece.

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