21 de mar de 2006

Zona de conforto

Após a festa de formatura e alguns cursos de complementação, chega o esperado momento de os filhos alçarem vôo, a fim de encontrar o seu lugar no mercado de trabalho. Nesse momento, uma nuvem de desamparo tolda a alegria e o orgulho dos pais.
Dias vazios parecem se estender à frente, sem o ruído da chave na porta da frente, o alvoroço dos estudos com os colegas estendendo-se pela noite, os comentários e as novidades à hora das refeições. Num exagero de saudade, a mãe sente falta da cama sempre revolta, da toalha molhada sobre o carpete do quarto, das roupas amarfanhadas em cima da poltrona, das portas do roupeiro abertas, do copo de Nescau sobre o lavatório do banheiro.
Também o pai, esquecido de que isso costumava ser fonte de irritação, a todo instante parece ouvir o barulho do motor do carro acelerado demais; nas madrugadas, acorda à espera da chegada silenciosa, para só então dormir tranqüilo.
A saudade é natural e até benéfica, sinal de carinho. Exagerada, é pedra presa aos pés, ameaça de afogamento. Perigosa tanto para os pais, como para os filhos.
Os jovens desejam testar as asas, explorar todas as oportunidades, dimensionar a sua força e o seu potencial. Mas só se sentirão aptos para as novas conquistas se estiverem certos de que o ninho continua lá, intacto e quentinho como todo ninho deve se preservar. A certeza de um lugar para onde voltar é o que lhes dá a confiança e a coragem para partir. Um único lugar no mundo onde sempre serão bem-vindos e poderão ser eles mesmos.A única geladeira que podem abrir sem-cerimônia e ainda criticar a falta do artigo desejado.
Alguém me disse que a casa paterna (ou materna, tanto faz)é a nossa zona de conforto. Alguns já não a possuem, outros nunca a possuíram. Quem um dia a conheceu, sabe do que estou falando. Também sabe que não é a aparência do lar que importa, se a casa era grande ou de apenas um quarto, se tinha portas enceradas ou paredes descascadas; importava mesmo o calor do sorriso, o olhar iluminado, o gesto de boas-vindas, o lugar à mesa.
O tempo e a distância não alteram a profundidade dos sentimentos bem cultivados. Os filhos retornam quando menos se espera. Nos bons momentos, vêm atrás do aplauso sincero; nos difíceis, procuram a segurança do amor garantido.
Os retornos serão alegres e cada vez mais freqüentes, à medida que perceberem que os pais não se deixaram ficar para trás, cultivando ausências, mas aceitaram outras presenças e interesses em suas vidas e seguem em frente, também eles buscando novos horizontes.
E a saudade se retira, em passos silenciosos, porque até ela respeita quem não lhe concede espaço demasiado.No seu canto adormece, à espera de uma frase, um gesto, um maneirismo que a façam despertar. Guardiã dos lugares já conquistados no nosso coração, ela é a certeza de que o tempo passou. Agora é virar a página e recomeçar, com a consciência de que as pequenas coisas de hoje, aquelas que nos parecem mais tolas e sem importância, podem ser justamente as que nos despertarão mais saudade, amanhã.

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